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Quase tudo de Inez Van Lamsweerde e Vinoodh Matadin

22.06.2011

Ela é filha de uma jornalista de moda e cresceu entre revistas e imagens fortes como as de Helmut Newton e Guy Bourdin, que influenciaram profundamente seu trabalho. Ele é filho de um alfaiate, cresceu entre tecidos e entretelas e até ensaiou ser estilista. Há 26 anos eles formam uma dupla, na vida e na profissão e, desde os anos 1990, conquistaram o mundo da moda com suas imagens.

ReproduçãoVinoodh e Inez

Esta é a primeira vez que a dupla de fotógrafos holandeses Inez Van Lamsweerde e Vinoodh Matadin vêm ao Brasil, curiosos porque conhecem –e adoram– as modelos daqui. O motivo é o convite do São Paulo Fashion Week que promove a exposiçãoPretty Much Everything”, com cerca de 300 trabalhos. Entre autorretratos, retratos de Clint Eastwood a Lady Gaga, fotos de moda e foto-esculturas, a exposição é imperdível! E o melhor: fica em cartaz no prédio da Bienal até 3 de julho, com entrada franca. A seguir, os principais trechos da entrevista com Inez Van Lamsweerde ao Estado.

Como vocês se conheceram?
Na faculdade em Amsterdã. Ele estava terminando a graduação em moda quando entrei, em 1985. Comecei a estudar fotografia e ele me pediu pra fazer as fotos das roupas que ele criava, pra divulgação da marca dele. Em 1993 ele resolveu encerrar a marca pra trabalhar só comigo. Assinávamos com o meu nome e ele era creditado como stylist, mas já fazíamos tudo juntos, só não colocávamos o crédito dos dois porque isso não era comum na época. Até que surgiu um trabalho pra “Vogue” América em 1996 que já tinha um stylist. Como não podíamos creditá-lo como stylist, passamos a assinar em dupla. Por volta de 2000 estávamos testando umas câmeras pra um editorial da “Harper’s Bazaar” e ele disse “vou testar essa enquanto você tira as fotos”. E assim, por acidente, começamos a criar essa dinâmica de tirar fotos juntos.

É assim que vocês trabalham até hoje?
Exato, tiramos as fotos juntos, cada um com uma câmera. Eu faço o contato com a modelo ou com a pessoa a ser retratada – elas olham pra minha câmera. Ele fica ao redor, clicando essas imagens que ganham impactos emocionais diferentes porque têm um lado mais introvertido. São momentos roubados. Também tem um lado meio voyeur. São dois pontos de vista diferentes, mas nunca nos preocupamos em “não ter conseguido a foto” porque dividimos essa responsabilidade! (Risos)

Quais são as principais características do seu trabalho?
Nós fotografamos seres humanos, esse é o cerne do trabalho. Mesmo que seja uma imagem de moda, é sempre uma pessoa que está ali. As roupas, pra nós, servem pra enfatizar as características daquela pessoa. É como num filme: a roupa dá a ideia do que é o personagem. Tanto nos retratos quanto nas nossas fotos de moda, sempre existe uma dualidade, uma ambiguidade. Existe uma tensão – o belo e o grotesco, por exemplo, dois pólos com a imagem no meio. Nunca está tudo claro, sempre existe alguma questão na imagem. Pra quem vê, isso dá uma sensação de mistério, a pessoa acaba olhando pra foto por mais tempo, e não simplesmente passando por mais uma página da revista. Isso fica claro na exposição.

O que temos na exposição?
É uma retrospectiva de 25 anos. Fizemos a curadoria como uma longa sentença sem começo nem fim, um looping. Não existe ordem cronológica nem grupos divididos em temas, como “trabalhos na moda” ou “retratos de celebridades”. Está tudo misturado. A ideia é mostrar como nosso trabalho existe na nossa cabeça. E são sempre duas fotos uma do lado da outra “conversando”, elas são conectadas ou uma tem uma relação de conflito com a outra. Enfim, se associam.

Isso tem a ver com a dualidade que você citou.
Exato, são duas pessoas, dois cérebros, duas fotos, dois lados. Há também trabalhos colaborativos na exposição. Um deles é com meu tio, Eugene Van Lamsweerde. Trabalhamos juntos há 5 anos no que eu chamo de escultografia, uma mistura de escultura e fotografia, e isso é ótimo porque é libertador, mistura áreas.

Como funciona?
Criamos uma foto já com a ideia de uma escultura. Por exemplo, tem uma foto que nós queríamos que fosse a de uma garota com o cérebro explodindo pra fora da cabeça. Fizemos a foto dela gritando e Eugene fez a escultura de cera da explosão. Gosto dessa camada a mais pra mostrar uma condição interna – a gente sempre procura um lado psicológico, algo que está dentro da pessoa pra ser mostrado na imagem, e é muito bom adicionar uma terceira dimensão pra mostrar esse lado interno.

Renata Kalil

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"Pretty Much Everything" na Bienal de SP

Com quem vocês adoram trabalhar?
Temos um interesse especial em Stefano Pilati, da Yves Saint Laurent. Somos nós e ele conversando, sem diretor de arte, sobre quem é essa mulher a cada nova coleção. Ela é uma executiva, como é a vida dela? É o único estilista com quem a gente tem uma troca como essa. Stefano fica animado com o shooting. A maioria dos estilistas fica estressada, pensando em termos comerciais e mil outras coisas, mas pra Stefano é um momento de relaxar: o desfile já aconteceu, as críticas já saíram, agora é hora de brincar com as roupas, de aprofundar uma ideia. É um envolvimento bem diferente. Essa última campanha fizemos com a Raquel (Zimmermann).

Vocês trabalham bastante com a Raquel!
(Sorrindo) Ela é a minha favorita, virou uma amiga. É muito versátil, pode se transformar em qualquer coisa que você peça: homens, mulheres, animais, espíritos… até objetos. Raquel é muito esperta, ela entende a imagem que você quer. Ela se desprende, dá tudo de si sem se preocupar se está feia, se vai parecer magra. Não deixa o ego falar, e isso faz com que a relação seja de muita confiança e sentimento. E ela é muito intuitiva, especial.

Depois do heroína chic e das supermodelos, qual é a tendência hoje, androginia?
É, tem rolado muita androginia… Eu não diria que a coisa é nessa linha de tendência de imagens, o que está me interessando agora é a internet. Ela tem feito a indústria da moda se democratizar. Temos o Tumblr, o Twitter e isso parece um jeito de liberar nosso trabalho totalmente. O Tumblr, por exemplo, é como se eu tivesse minha própria revista, é o início de uma maneira de se comunicar totalmente democrática. Podemos investir em uma abordagem mais pessoal pra mostrar a fotografia, um clique da Raquel se trocando que ficou lindo, por exemplo, e isso pode ser dividido com o mundo via Tumblr.

Quais são os próximos projetos?
Estamos fazendo bastante vídeo. Quase toda marca quer um vídeo, e isso é interessante pois você pode fazer muito mais com uma imagem em movimento. Existem dois tipos de vídeos: o making of, que não é o tipo de imagem que a gente faz; e o que traduz a imagem de uma campanha em um videoclipe ou, como chamá-lo… um minifilme. Ele exige um jeito diferente de pensar, existe uma ação, um roteiro. E também tem música, edição, efeitos especiais, isso abre um novo campo. O vídeo também exige mais das modelos, elas precisam falar. Não é simples, exige um outro tipo de personalidade. É por isso que as pessoas gostam da Raquel (Zimmermann), ela se dá bem em vídeo.

O que você espera do Brasil, é a primeira vez?
É minha primeira vez na América Latina! E… não tenho expectativas! É engraçado porque a gente fotografa muitas modelos brasileiras e não conhecíamos o lugar de onde elas vinham até agora. Estou empolgada, quero ver mais da arquitetura da cidade.

Vocês vão fotografar aqui no Brasil?
Não dessa vez. Preferimos focar na exposição, conhecer a cidade, ir pro Rio, sem ficar fazendo produção, pensando em foto. Mas queremos voltar só pra trabalhar, talvez em novembro!

Lilian Pacce, especial para o jornal “O Estado de S.Paulo” no dia 19/06/2011 (colaborou Jorge Wakabara)

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