Um papo com a estilista senegalesa Selly Raby Kane

16.12.2016

Selly Raby Kane, quando criança, era uma ativista pelos direitos da infância na sua cidade natal, Dakar, no Senegal. E ela inclusive foi estudar direito na França. Mas em algum momento começou a desenhar, e aquele desenho virou vestido, e o vestido virou coleção, tudo de maneira bem orgânica… Aos 30 anos, Selly é uma estilista bem criativa que faz parte da efervescente cena cultural do seu país. Ela não só estimula a produção local como atualiza as referências estéticas senegalesas com o coletivo criativo do qual participa, o Les Petites Pierres Crew. Foi convidada pra participar da edição paulistana do What Design Can Do, evento que pensa o design como ferramenta de transformação e que rolou nessa semana na Faap. A gente aproveitou pra bater um papo com ela – confira, e depois clica na foto pra acessar a galeria e conhecer mais do trabalho da Selly!

Você era uma ativista quando criança e se transformou em uma estilista com um interesse muito grande no mundo da fantasia e do sonho. Qual é a sua visão sobre essa sua mudança? Pra algumas pessoas o sonho pode não soar muito… ativista. (Risos)
Pra mim o sonho vem antes de qualquer ação. Você precisa visualizá-lo, mergulhar nele, e assim saber onde vai agir antes da ação em si. Sonhar pra mim é um processo ativista que uso em qualquer projeto, coleção ou outras coisas que faço. Sempre preciso criar uma história e personagens pra entrar naquele espaço ficcional e aí transformar tudo em realidade.

Mas você acha que deixou o seu lado ativista pra trás?
Não, de forma alguma. Faço parte de um coletivo de artista com muitas ações pelas ruas de Dakar, criamos um museu de arte urbana juntos em um dos bairros mais populares da cidade. Sempre pensamos em uma ligação entre o que estamos criando e como isso pode impactar na cidade, como podemos transformá-la com arte e cultura. Isso também é uma forma de ativismo.

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Você tem um lado bem streetwear nas suas criações. E o mercado de luxo tem capturado essa energia street também. Por que você escolheu o streetwear como uma das bases do seu trabalho?
Primeiro porque, claro, vivo na cidade, na área urbana. Trombo sempre com tribos urbanas, com tudo o que acontece na cidade, e tem muita vida outdoor no meu país. Você sempre vai ver algo engraçado acontecendo; alguma maluquice, algo menos maluco… Essa energia, essa dinâmica, isso que me inspira mais, sempre evoluindo e mudando.

Qual é o conselho que você daria pra alguém que trabalha com moda… e que não mora em Paris? (Risos)
Bom… Se você estiver em Dakar, ou Abidjan [Costa do Marfim], ou Acra [em Gana], ou em outro lugar do mundo que não seja Paris, o meu conselho é lembrar que a moda é feita pras pessoas pra quem você quer criar. Num contexto onde pessoas não podem pagar uma certa quantia, é você que tem que se adaptar enquanto estilista. Nesse momento o sonho pode ficar meio amargo: quando alguém quer criar como um nova-iorquino, mas vive e vende em Dakar… Não faz sentido! Não é o mesmo contexto, nem valores, nem perspectiva da vida. Totalmente diferente. Se você exporta é ainda outra história, mas sempre pense em quem são as pessoas pra quem você está criando, e no que você pode fazer pra essas criações serem vestidas, amadas, abraçadas por elas.

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E a gente precisa fazer a pergunta que batiza esse evento pro qual você foi convidada: o que o design pode fazer?
O design pode mudar, transformar, fazer sonhos se tornarem realidade. Pode parecer que estou exagerando mas o design provê soluções. Na minha cidade, ele faz com que as pessoas tenham uma experiência melhor no ambiente em que vivem. Existe também o design em termos de aplicação tecnológica, em aparelhos, em espaços públicos… Pra mim ele está no coração de tudo, desenhar coisas te ajuda a viver a vida que você quer, a acessar as informações que você quer. É fundamental.

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