Ressignificação de materiais e objetos na Pistache Ganache

05.04.2017

André Romitelli e Martina Brusius eram colegas de trabalho – os dois são arquitetos – quando perceberam várias afinidades e resolveram juntar forças. Assim surgiu o ateliê Pistache Ganache, que hoje trabalha de maneira interdisciplinar, entre objetos pra casa e acessórios. A dupla fez uma coleção de colares chamada “Florence” (inspirada na rua Florence, em SP) pra plataforma Melissa Meio-Fio (lembra que a gente contou aqui?), que desejou dar voz às manifestações criativas e sociais de SP. Os materiais dos acessórios são incomuns e todo o processo criativo que os abrange deixou a gente curioso. Conversamos com Martina sobre transição de área, inspirações, sustentabilidade… Confere abaixo:

Como foi que surgiu o Pistache Ganache? Quando viram que o trabalho de vocês dialogava também com a moda?
Eu e o André trabalhamos juntos em escritório de arquitetura, que também mexe com cenografia. A dupla começou mesmo quando fomos pra Milão. A história é engraçada porque percebemos várias afinidades de trabalho por lá, enquanto comíamos sorvete. Nós percebemos que deveríamos trabalhar juntos, e foi assim que surgiu o nome do ateliê, Pistache Ganache – em referência ao sorvete. Além disso, sempre trabalhamos com produto, com experimentações – essas dialogam bastante também com a moda.

A Oliveria de Sommer em parceria de acessórios!

Quais foram os primeiros produtos criados por vocês?
Uma das primeiras coisas que fizemos foram produtos derretendo estanho, que gerou uma técnica que fazia com que uma superfície ficasse lisa e a outra rugosa do objeto que fazíamos. Primeiro a gente derreteu na rua, no asfalto mesmo, depois começamos a tirar de formas. Na mesma época fizemos mobiliários, alguns móveis que encontrávamos pela rua mesmo e que tinham alguma história que recontávamos. A reconstrução desses mobiliários os ressignificava, os tiravam da posição de lixo.

A proposta daqui pra frente então é continuar assim, ressignificando alguns artigos que são “de outras áreas” ou de descarte?
Criar e contar histórias é muito importante pra gente, pra criar um vínculo mais perene entre consumidor-usuário – que pede que as coisas tenham importância.

Na temática do descarte, qual é a relação de vocês com a sustentabilidade? 
O vínculo maior, que é afetivo e entre o usuário e objeto, faz perceber que as pessoas atualmente tem esse estilo de vida meio nômade, moram em 20 casas na sua vida toda, talvez. A gente precisa de objetos que nos acompanhem nesse percurso e que contem também a nossa história, nossa identidade. Temos uma luminária que traz justamente essa ideia – como ela pode ser pendurada em qualquer lugar, tanto num mancebo quanto na parede, é uma peça que a gente acha que pode acompanhar as pessoas. Partimos do pressuposto desse estilo de vida mesmo.

Confira: a coleção de tecidos africanos da Okan com Rita Comparato

E a busca de materiais? O que a inspirou?
Essa coleção faz um vínculo bem forte com a cidade. Sempre trabalhamos com essa temática e surgiu a coleção Florence – é uma rua que a gente gosta muito no centro da cidade de SP, paralela à 25 de Março. Lá tem muito material industrial de segurança, de construção; e ela está se transformando rapidamente, se descaracterizando. Nos últimos meses, várias lojas da 25 começaram a entrar lá, então tem bastante produto vindo da China. Frente a isso, encontramos materiais que gostávamos muito, como cordão de fibra de vidro e termorretráteis. Daí que tudo surgiu: vimos que precisávamos fazer um projeto registrando esse momento em que a rua ainda está lá, e mostrando como existem materiais interessantes nela, ressignificando-os. 

Como foi a experiência de participar do Melissa Meio-Fio?
Ótimo! O projeto é bem interessante justamente pelas pessoas que ele junta. Foi um grande aprendizado, lidamos com pessoas de negritude, de transexualidade, nos aproximamos um pouco dessas questões e conhecemos pessoas incríveis. Agora isso está gerando frutos, vamos nos envolver em alguns projetos exatamente por esses vínculos que criamos. 

Um artista que borda em chapas de Raio-X

Por que escolheram acessórios?
É algo pelo qual as pessoas se atraem facilmente e foi bem natural nesse caso. O material tinha essa sensualidade de brilho e maciez – a gente logo pensou: “É feito pro corpo!” É uma relação de ornamento e também de expressão. É engraçado, às vezes um objeto de casa não gera o mesmo desejo que um acessório, não tem essa força de comunicação com as pessoas.

Vocês pretendem continuar investindo em acessórios?
Vamos continuar com objetos, tanto de casa quanto de produto. Mas a vontade maior agora é de nos envolvermos com acessórios, deu vontade sim, é algo que gostamos de trabalhar… E é uma escala boa também, ele é menor, mais delicado pra ser feito, tem um contato muito próximo do manual que a gente gosta bastante.

Pistache Ganache: (11) 97627-0875

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