Oscar 98

24.03.1998

Cansadas de serem alvo de tantas críticas, as atrizes de Hollywood perseguiram tanto o bom gosto que a maioria foi bem-sucedida na noite de entrega do 70º Oscar. De Elizabeth Sue, que apresentou o prêmio de melhor figurino com um longo de renda esmeralda rebordada, à performance básica e impecável de Susan Sarandon que, com o corpo firme, segurou com elegância um longo preto com decote bustiê preso por alcinhas de sutiã, com cauda esvoaçante – um modelo digno da dupla italiana Dolce & Gabanna. Como a noite é de gala, o comprimento longo dominou a cena e só mesmo Cher para quebrar o protocolo e levar o prêmio alegoria. Neste Oscar, apareceu melhor quem se vestiu mais cool, mesmo que este cool siga o toque feminino e artesanal das tendências de alta-costura: muitos bordados (canutilho, vidrilho, micropérolas…), muita renda e muito tule, mas nada que resultasse um bolo de noiva. As cores preferidas foram verde, vermelho, perolados e preto.

O foco de atração para os flashes ficou com as jóias, num desfile de reluzentes gargantilhas, novas ou de época, assinadas por casas de tradição como Asprey, Tiffany’s, Van Cleef  & Arpels e Harry Winston, conhecido como o rei dos diamantes. A insossa Céline Dion, por exemplo, tentou valorizar seu volumoso Coração do Oceano, uma réplica de safira do filme Titanic, colocando-o sobre um longo-sereia stretch preto à Thierry Mugler, fechado até o pescoço. Já a cantora Madonna apareceu linda, com o cabelo cacheado de sua fase mummy, em modelo de fazer inveja à sua Evita. Seu poderoso colar era realçado com o profundo decote do vestido preto, abotoado apenas na cintura, que se abria sobre saiões de tule.

Claro que as exceções saltam aos olhos. A jovem atriz inglesa Kate Winslet estava a própria floresta amazônica, com modelão verde de decote império provavelmente assinado por seu irreverente amigo Alexander McQueen. Ao anunciarem o prêmio de melhor atriz para Helen Hunt, Winslet deu mais dramaticidade ainda ao modelo, que quase incendiou de tanta raiva. Kim Bassinger teve mais sorte com o vestido verde-claro de decote canoa que descia nas costas arrematado por laço: faturou melhor atriz coadjuvante. A julgar pelo modelo que usou no Globo de Ouro, o vestido deve ser do desconhecido Amsale.

Helen Hunt apostou no correto: um tomara-que-caia de xantungue verde-água, bem sequinho, assinado por Giorgio Armani. Mais uma vez, o estilista italiano fez do Auditório Shrine sua passarela e chegou ao podium com o maior número de Oscars. Entre os homens, o mais original era Robin Williams, que ganhou melhor ator coadjuvante vestindo um casaco 7/8 preto com gola Mao sobre camisa branca de gola alta, sem gravata. Os meninos Matt Damon e Ben Affleck, também de “Gênio Indomável”, receberam prêmio de melhor roteiro usando versão mais tradicional de smoking, também by Armani. E, enquanto Billy Cristal mais uma vez apresentou o Oscar fiel a Armani, José Wilker, no Telecine, adotava o look monocromático com costume de veludo marrom da Prada. Jack Nicholson recebeu sua estatueta de melhor ator vestindo smoking de Donna Karan.

O vermelho foi escolhido pela elegante Minnie Driver, em modelo decotado de Gianni Versace com direito à pele do mesmo tom, e por Francis McDormand , que usou uma capa de renda dourada por cima. Geena Davis também deu um toque de pele na manga recortada do vestido manteiga com o dorso bordado. Ainda na tendência off-white, Cameron Diaz escolheu um modelo que parecia um número acima de seu manequim. A moda brasileira perdeu a chance de mostrar os tricozinhos da Patachou usados em “O Que É Isso, Companheiro?”, o vestido da Beneduci (em Fernanda Torres) e o smoking da Forum (em Luís Fernando Guimarães). Mas, um dia, a moda e o cinema brasileiro ainda chegam lá.

Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo

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