Hedi Slimane fala sobre a estreia na Celine!

26.09.2018

Ele é geralmente discreto e não dá entrevistas. Mas Hedi Slimane decidiu falar, poucos dias antes de sua esperada estreia no comando criativo da Celine no dia 28/09, sexta-feira, pro jornal francês “Le Figaro”. O último desfile assinado por Slimane que vimos foi no começo de 2016, na Saint Laurent – de lá pra cá, ele voltou a se dedicar a outra paixão, a fotografia. A gente te mostra alguns dos destaques da entrevista.

Sem acento
Sobre ter retirado o acento do nome da marca e do logo: “Absolutamente não tem a ver com marcação do meu território, pelo contrário. É um jeito de colocar ‘a igreja de volta no centro da vila’. É ortodoxia, simplesmente. É instalar elementos da linguagem, enraizados na história original da casa, sua fundação, voltando ao alinhamento arquitetural e gráfico que é essencial ao projeto.” Ele ainda diz, provavelmente se referindo também à mudança que ele promoveu na Saint Laurent quando entrou nela: “Sempre há reações vívidas sobre logos, ainda mais hoje em dia por causa do efeito viral das mídias sociais. É normal. Tudo isso foi previsto, mas precisava ser feito. As grandes maisons estão vivas. Precisam evoluir e desenterrar a essência de suas identidades – tudo menos indiferença. Você não agita coisas evitando fazer ondas. Quando não há debate, isso quer dizer que não há opinião, é a definição de conformidade cega.”

Sobre suceder (a bem-sucedida) Phoebe Philo na marca
“Nossos estilos respectivos são identificáveis e muito diferentes. Nossa visão é naturalmente distinta. Além disso, você não entra numa casa de moda pra imitar seu predecessor, muito menos pra pegar a essência do trabalho dele, seus códigos e elementos de linguagem. E o objetivo também não é ir pro caminho contrário. Isso seria um erro de interpretação. Respeito significa preservar a integridade de cada indivíduo, reconhecendo as coisas que pertencem a outra pessoa com honestidade e discernimento.”

Hedi Slimane abre o jogo antes da sua estreia na nova casa

Sobre como ele vê a Celine
“Sempre fui muito sensível a respeito dessa noção de alta qualidade, esse savoir-faire que se relaciona à maison. Nesse contexto, a ideia de brincar com códigos burgueses é muito interessante. Além disso, na Celine o peso do passado não é tão pesado quanto na Dior ou Saint Laurent. Você pode se libertar mais facilmente. Celine é uma visão de Paris, um jeito de vestir… Não quero prendê-la em algo. Não há obrigação, nenhum modelo ligado a um legado muito importante. É mais uma ideia de França do que uma chapelaria. Começando disso, podemos inventar um vocabulário. O que é importante é sempre o agora.”

Então, como vai ser esse novo capítulo da Celine?
Ele explica que vai dar uma visão profundamente pessoal e respeitosa pra herança francesa da marca: “Você chega com uma história, uma cultura, uma linguagem pessoal que são diferentes das estabelecidas nas casas de moda onde você cria. Você precisa ser você mesmo”. Ele adianta que vai ser uma mentalidade francesa no tom de seus primeiros anos na moda com as pessoas que conheceu: “Yves Saint Laurent e Pierre Bergé quando comecei, e com meu tempo na Dior” onde acabou diretor criativo da Dior Homme.

Sobre a volta pra moda
“Estou encantado em voltar a uma casa francesa, uma tradição, ofícios, ateliês. Paris é a melhor no ‘feito à mão’, que é inacreditavelmente chic. Fora a virtuosidade dos ateliês, esse savoir-faire se deve a um estado de espírito, um jeito de trabalhar, a compreensão imediata de um modelo, uma sensação particular que só pode ser encontrada em Paris.”

Sobre o skinny que ele popularizou
“Quando era jovem, tudo era sempre muito grande pra mim. Fora algumas excessões – os blazers Ivy League que comprava em mercados de pulgas no meio dos anos 80, os costumes Savile Row que encontrei em Notting Hill quando tinha 18 anos – era impossível encontrar o paletó perfeito. Eu ‘flutuava’ em tudo. Todas as roupas eram ‘boxy’. Minha mãe sabia como cortar paletós au chic, sem modelagem. Os que ela costurava pra mim eram perfeitos. Sou descendente de uma família de alfaiates de Pescara, na região italiana de Abruzzo. Talvez fazer esse trabalho [de estilista] é um jeito de continuar a tradição familiar eternamente.”

Sobre a linha masculina da Celine
Um ateliê foi adicionado ao Hôtel Colbert de Torcy no segundo arrondissment pra ser dedicado à nova linha masculina, que estreia junto com a feminina nesse desfile dessa semana.

Sobre sua doença
Slimane sofre de um zumbido eterno no ouvido, resultado de uma doença crônica relacionada a estresse pós-traumático: “Saiu do controle no começo, e passei por um período muito difícil com fases intoleráveis de ansiedade. Pensar que nunca saberia o que é silêncio de novo era inconcebível e insuportável. Foi uma espiral, uma dor diária”.

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