Curadora do Museu de Moda da Antuérpia fala sobre moda belga

24.04.2013

Karen Van Godtsenhoven é curadora do MoMu, o Museu de Moda da Antuérpia, que tem ligação com a mítica Royal Academy of Fine Arts, escola de onde saíram grandes estilistas como Raf Simons e Dries Van Noten. Ela veio pro país pra dar uma série de palestras pela Radar Consultoria, em um tour que começou em Fortaleza, passou pelo Rio e acabou em SP. Blog LP aproveitou pra conversar com Karen, que falou sobre o famoso “The Antwerp Six” (a 1ª geração de grandes estilistas da Bélgica), as exposições do MoMu e mais – confira!

A dupla da Peter Pilotto, ex-alunos da faculdade belga, também conversou o Blog LP

A Bélgica entrou no cenário mundial da moda graças ao “The Antwerp Six”, grupo de estilistas formado por Dries Van Noten, Ann Demeulemeester, Walter Van Beirendonck, Dirk Van Saene, Marina Yee e Dirk Bikkembergs. Pra começar, conte um pouco sobre como tudo isso aconteceu.
Bom, todos eles eram amigos e se formaram na Royal Academy of Fine Arts da Antuérpia nos anos 80. No início eles eram em 7, contando o Martin Margiela, mas ele acabou em outros caminhos e foi pra Paris trabalhar com Jean Paul Gaultier. Nesta época, o governo belga dava suporte pra moda nacional através de concursos, como o “Golden Spindle Competition”, e os estilistas começaram a ficar mais conhecidos no país – mas isso não bastava. Com ajuda de apoiadores, o grupo foi, em 1986, mostrar suas roupas em Londres- por ser uma cidade com uma energia mais jovem e rebelde, assim como suas criações – e lá um editor da revista “i-D” viu o trabalho deles e adorou. Foi aí que a mídia internacional começou a dar mais atenção e ver a força criativa belga, dando mais confiança aos estilistas. Acredito que é isso que os estilistas do Brasil precisam também, confiar em seus trabalhos pra criar uma identidade brasileira, como criamos nos anos 80.

O que você caracteriza como sendo a identidade da moda da Bélgica?
Acho que todos do grupo tem uma assinatura e estilo muito próprios. Porque cada um é diferente do outro: temos Margiela com toda sua desconstrução de um lado, Ann Demeulemeester e sua pegada gótica, mas também temos Dries Van Noten e Walter Van Beirendonck, que fazem coleções cheias de estampas e cores, do outro. Acredito que a identidade da moda belga seja a criatividade misturada com a realidade. Nosso design é mais baseado na arquitetura e nas formas, podemos fazer roupas com um ar mais artístico, mas temos o pé no chão.

Como é o cenário da moda belga de hoje? Quem são os novos estilistas?
É interessante porque agora os estilistas belgas não podem mais ser chamados assim, pessoas de todo o mundo vem pra Antuérpia estudar. Depois do “The Antwerp Six” tivemos uma 2ª geração, que conta com Raf Simons, Veronique Branquinho, Kris Van Assche… Nesses últimos anos também tivemos Haider Ackermann, que desfila em Paris, Peter Pilotto e Bruno Pieters, criador da Honest by, que tem um trabalho ecológico superbacana. Mas mesmo quando os alunos não tem suas marcas próprias, eles estão trabalhando em grandes marcas, como a Prada, Marc Jacobs, Chanel etc. Abrimos um espaço em uma parte do prédio da escola e do museu onde os alunos formados podem vender suas roupas e expô-las, e isso é ótimo pra ajudá-los e incentivá-los no começo de suas carreiras.

E como é o acervo do MoMu e suas exposições? 
Colecionamos peças históricas e contemporâneas, da Bélgica e de outros lugares também. Fazemos duas exposições ao ano: uma individual de algum estilista, como já fizemos com Walter Van Beirendonck e Dries Van Noten; e outra em cima de um tema, que pode ser qualquer coisa – uma cor, um estilo, um tipo de tecido. Gostamos de relacionar os diversos períodos da moda entre si, por isso não fazemos mostras cronológicas e colocamos uma roupa do século 17 ao lado de outra peça de 1970, por exemplo. Também fazemos paralelos com outras áreas, fazendo parcerias com artistas, cenógrafos, arquitetos e até mesmo os próprios estilistas quando montamos uma exposição, pra despertar um maior interesse do público.

A moda muda o tempo todo e o museu é um local de permanência. Como você enxerga essa relação?
1º, tenho que dizer que é muito difícil conservar tudo isso. As roupas do século 19, por exemplo, eram muito bem executadas e feitas pra durarem pra sempre, mas hoje em dia cada vez mais os estilistas usam materiais diferentes ou tecidos que não tem tanta qualidade, o que atrapalha na conservação e restauração. Em relação às mudanças, a moda está sempre em transformação mesmo, mas quanto mais ela muda, mais ligações podemos fazer – e é isso que procuramos passar nas exposições. Também queremos mostrar as coisas de uma forma diferente de como foram apresentadas na passarela, por exemplo. Em uma individual sobre o Yohji Yamamoto, ele queria que tudo fosse montado como uma grande loja, onde as pessoas pudessem tocar nas roupas e até experimentá-las. Isso é uma forma de ver as peças de outra maneira e deixar o processo mais dinâmico.

E quais critérios você utiliza pra selecionar uma peça que entrará pro acervo do museu?
Isso é um pouco complicado também, porque nós focamos mais na coleção de peças de estilistas que tem uma assinatura e um conceito. Mas sabemos que se alguém olhar pro nosso acervo daqui 50 anos, vai pensar que todo mundo só usava Dries Van Noten hoje em dia, o que não é verdade! (Risos) Então agora estamos começando a olhar mais pra cultura e moda de rua, descobrindo como incluir jeans e camiseta em nosso acervo também, porque isso também faz parte da história.

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