Calendário Pirelli: 50 anos de sensualidade

02.12.2013

Nesse ano, no tapete vermelho do The Cal
Do mesmo Albert Watson pra “Vogue”, em 1984
Betty por Albert Watson em 1986
Betty Prado, uma das maiores tops brasileiras dos anos 80, no calendário da Pirelli

Criar uma edição comemorativa de 50 anos do calendário mais pop do mundo não era tarefa fácil. Imagine os executivos e criativos da italiana Pirelli – marca dos pneus da Fórmula 1 – sentados na sala de reunião para decidir o grande feito. Afinal a data merecia cuidados extras e manter a curiosidade sobre o próximo ano é um desafio no qual a empresa tem se saído muito bem desde 1964, quando se aventurou no mundo das sensuais folhinhas de borracharia pela primeira vez com imagens clicadas por Bob Freeman – mais conhecido como o retratista dos Beatles.

Num misto de inspiração divina com um perfume de mea culpa, a Pirelli acabou tirando do fundo da gaveta um calendário encomendado, mas jamais publicado, que é (e era) a cara da marca: fotos feitas pelo grande Helmut Newton (1920-2004), em 1985, em Mônaco, durante o Grande Prêmio, e na Toscana, na Itália, com três modelos: Antonia Dell’Atte, Susie Bick e Betty Prado. E mais: os dias da semana de 1986 coincidem exatamente com os de 2014. Tudo isso trouxe ao lançamento do calendário em Milão uma dose extra de magia e emoção, criando um verdadeiro buzz na festa comandada pelo ator Kevin Spacey, como se fosse a noite do Oscar.

Para nós brasileiros, emoção extra-extra. Betty Prado foi a primeira brasileira a fotografar para o calendário, que depois passou a ter sempre, quase que religiosamente, uma brasileira em suas páginas: de Gisele Zelauy a Gisele Bündchen, passando pela recordista Isabeli Fontana, que participou de seis edições (e também está nas fotos especiais da comemoração desses 50 anos feitas por Peter Lindbergh e Patrick Demarchelier em Nova York).

Betty, hoje consultora artística da TV Globo, era uma das modelos preferidas de Helmut Newton, de quem se tornou amiga – tanto que chegou a promover uma exposição dele no Brasil e até o convenceu a fotografar a campanha do lançamento de um shopping center de SP.

Como todos os 800 convidados vindos do mundo todo para o lançamento, ela não sabia de nada – faz parte da estratégia de marketing não revelar nenhum detalhe sobre o novo The Cal (como ele é chamado pelos íntimos) até a hora H. Quando o novo calendário foi anunciado como “um trabalho único que foi mantido em segredo e jamais distribuído”, Betty apareceu logo na primeira foto, abrindo o ano de 1986 num balanço de corda e pneu pendurado numa árvore.

Superemocionada, ela me contou que os motivos alegados na época para a não-publicação do calendário nunca foram claros. “Estávamos fotografando na Toscana quando Helmut recebeu a notícia de que a June, sua mulher, tinha tido um enfarte. Um helicóptero veio buscá-lo e ele entregou a Manuela Pavesi a missão de concluir o trabalho. Acho que aquilo inclusive impulsionou a carreira de Manuela como fotógrafa,” conta. Manuela, hoje fotógrafa e consultora da Pirelli e da Prada, era a stylist então.

O fato talvez tenha melindrado a Pirelli mas a versão oficial é que dois calendários estavam sendo produzidos simultaneamente: Newton na Itália e Bert Stern na Inglaterra, onde o calendário nasceu, refletindo o espírito de liberalismo da swinging London que brotava então. Segundo Marco Tronchetti Provera, presidente da Pirelli, Stern acabou sendo escolhido em consideração à equipe de Londres, responsável tradicionalmente pelo The Cal.

Versões à parte, o trabalho de Helmut Newton quase 30 anos depois preserva seu valor como um bom vinho. Newton tinha um estilo único, marcado pelo erotismo e fetichismo que quebrou o paradigma da fotografia de moda nos anos 60, até então glamurizada dentro de clássicos padrões de elegância. O conceito das fotos foi inspirado num editorial de moda que ele havia feito com Manuela para a revista “Vogue” Itália, mostrando o contraste entre uma mulher pobre e uma rica. Para o editor Benedikt Taschen, que prepara um livro sobre o calendário para 2014, “as imagens parecem feitas ontem, são clássicas”. “Newton dizia que a foto estava na cabeça dele, a câmera apenas a realizava”, conta. Talvez isso explique por que, apenas com suas instruções sobre posicionamento da câmera e atitude, Manuela tenha concluído o trabalho como se fosse ele próprio. Newton morreu em janeiro de 2004, num trágico acidente de carro. June tem 90 anos e não foi ao lançamento.

Lilian Pacce, especial para o jornal “O Estado de S.Paulo” no dia 1/12/2013

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