A incrível história da coleção de roupas feita em impressora 3D

03.11.2015

E aí, curtiu? Bem-vindo ao futuro!
Essa é a jaqueta vermelha – se você olhar bem, embaixo desses padrões geométricos está escrito “Liberté”!
A saia é feita com a tal padronagem bem maleável que ela citou na entrevista – e fica com um supermovimento bacana mesmo
Tudo foi impresso na casa dela – imagina?!
Vem ver as roupas em 3D que Danit Peleg fez… pra sua coleção de graduação!

Danit Peleg tem 27 anos e cresceu em Tel-Aviv. Aos 10, ela fazia aulas de moda depois da escola e essa sua professora fazia Shenkar (uma das faculdades de moda mais famosas do mundo). Ela a admirava tanto que, ao decidir o que queria fazer da vida, decidiu seguir os passos dela e conseguiu entrar na faculdade mesmo com toda a concorrência envolvida! Como estudante, Danit já se interessava por essa união entre tecnologia e moda – corte à laser, impressão digital em seda… Há dois anos, ela foi fazer um estágio em NY na ThreeAsFour e participou de um projeto pro desfile deles com dois vestidos feitos em impressora 3D industriais. De lá pra cá, ela fez seu projeto de graduação (uma coleção) todo em casa, com impressoras 3D de uso pessoal que já estão disponíveis no mercado, e apresentou-o há 3 meses pra banca!

Leia mais: falamos sobre impressora 3D e moda em 2014! Mas a tecnologia já avançou!

Faz pouco tempo mesmo, mas viralizou tanto que atualmente Danit roda o mundo mostrando o resultado dessa inovação, que abre um leque de possibilidades absurdo, e foi convidada pra vir ao Brasil pra participar do evento Wearable, com seminários sobre moda e tecnologia. Conversamos mais com ela sobre todas essas novidades sobre as quais estudou e está intimamente envolvida – leia abaixo e depois clique na foto pra acessar a galeria e conferir imagens da coleção que ela fez pra faculdade!

Você é uma geek?
Sou, mas só agora eu sei! (Risos) Quando eu era estudante, não sabia que era geek. Todo o tempo eu trabalhava com látex, poliéster líquido, coisas com cheiros muito fortes, e meus colegas de apartamento diziam ‘Por favor, vá embora! Toda a casa cheira mal!’ (Risos) Mas eu fazia todos esses experimentos porque tinha a curiosidade em descobrir novos materiais, sempre quis isso. Nunca gostei de ir numa tecelagem, comprar o tecido e costurá-lo. Sempre quis “fazer” o tecido! Portanto sempre tentei mexer com novas tecnologias.

E você já sabia de impressora 3D antes do trabalho com a ThreeAsFour?
Na verdade foi lá que vi como ficava o resultado, como era o toque do material na época etc. Mas as máquinas que usamos há dois anos eram industriais, custavam US$ 20.000 cada! E por causa disso nós só tínhamos uma chance de imprimir o vestido, não dava pra ter erro porque sairia muito caro. Aí eles mandavam esses vestidos da Bélgica pros EUA… O resultado foi realmente incrível, não me entenda mal, mas tive questões com as peças: o material era um plástico duro, não tinha mobilidade, não dava pra sentar usando-o, e o tempo todo ele quebrava com o movimento da modelo. Então era algo pra desfile mesmo.

Veja também: jeans que interage com o toque? O Google quer!

Mas quando foi que você viu que a impressão 3D era mais possível pra algo mais cotidiano, menos passarela?
Depois disso fui ao festival Burning Man em Nevada, e um dos princípios do festival é dar presentes pras outras pessoas. Ganhei um colar feito numa impressora 3D! Voltei pra Israel pra trabalhar no meu projeto de graduação e, nesse meio tempo, olhando pro colar, vi que ele tinha sido feito em uma impressora 3D caseira, uma impressora pequena.

E aí deu um clique…
Exatamente! Pensei: ‘Esse designer fez um colar na impressora que ele tem em casa! Posso fazer o que quiser com uma impressora na minha casa! Por que não poderia fazer roupas?’ Então comecei a pesquisar essas impressoras pequenas, que hoje em dia custam US$ 2.000, e não US$ 20.000 como as industriais. E você pode usá-la na sua casa, não precisa esperar algo vir da Bélgica, não precisa ter tanto medo de errar… Muitos pontos positivos e muitas possibilidades! O que eu precisava resolver era o problema da flexibilidade. Numa pesquisa online, encontrei uma padronagem que era open source, dava pra mudá-la da forma que quisesse. Peguei o arquivo, que o criador fez originalmente pra fazer parede de restaurante, casa etc., mas coloquei em escala pequena usando um material mais flexível. E deu certo!

Mas você precisa costurar as partes, de qualquer forma, não? Como é que acontece na prática?
Conecto as partes com uma cola, uma supercola superlouca que trabalha bem com borracha. Vou te explicar o passo-a-passo: uso um software de moda mesmo, pra criar os cortes da peça. Por exemplo: a gola, a parte da frente da blusa, a parte de trás, a parte da manga… Aí pego todos esses pedaços e jogo no software de 3D! O 1º item que fiz foi a jaqueta vermelha. Escrevi “Liberté” nas costas dela porque senti tanta liberdade pra fazer tudo, e queremos liberdade pra fazer nosso trabalho, todos nós. Como um artista, ou um estilista, quero trabalhar por mim mesma, não quero depender, por exemplo, do que a indústria têxtil quer vender, se ela quer me vestir um tecido assim ou assado.

Tem como encaixar as partes que saem da impressora sem precisar de cola?
Ótima pergunta: tem. Pesquisei isso também, queria simplesmente conectá-los como um quebra-cabeça sem precisar de cola, mas aí eu via todas essas conexões na roupa e não ficou bonito. Fica grande, o design não ficou fluido como eu gostaria, tinha quebras. Por enquanto deixei de lado, mas nos projetos futuros tentarei novamente.

Leia mais: Pele humana feita em impressora 3D? Sim, já existe!

E o que você espera no futuro da moda, tendo isso tudo em perspectiva?
Se a tecnologia fosse mais rápida… Atualmente demora 300 horas pra eu imprimir um dos vestidos da coleção. A coleção inteira demorou 2.000 horas. Acho que no futuro vai demorar 30 minutos! É como a internet, lembra quando a gente tinha que esperar 15 minutos até a página carregar, e apertar um link, e aí demorava mais 15 minutos…? É a mesma coisa com essa tecnologia, de verdade: estamos muito no começo! A cada mês ela fica mais barata e mais rápida!

E esses são os dois principais desafios, o preço e a rapidez, certo?
Isso, e também tem o material: o que eu usei foi a borracha, que é flexível mas não é algo tão confortável pra pele. No futuro devemos usar algodão e poliéster! Existem estudos mas eles ainda não foram pro mercado. Ainda! O que imagino é que daqui 10 anos você vai entrar na sua loja online favorita e vai fazer um download da sua peça da Calvin Klein favorita, por exemplo, e no tempo de escovar o dente e se arrumar de manhã, ela está pronta. Você não vai precisar mais de bagagem pra viajar pra outro país, porque no hotel vai ter uma impressora e vai ser fácil imprimir suas roupas! Pra indústria da moda, isso significa nada de produção fora, a produção é toda na sua casa. O estilista vai estar conectado diretamente com o consumidor. Os ciclos da moda talvez fiquem mais rápidos também: agora a gente tem 4 estações, no futuro você não vai esperar por meses entre a criação da coleção até comprá-la. Você faz um download e imprime! Você vai ver tendências diárias, todo dia vai ter uma tendência diferente. Isso vai mudar tudo!

Mas pegando o exemplo da indústria da música, quando as pessoas começam a fazer download pirata e gratuito na internet, isso não é preocupante? O que você acha?
Bom, existem lugares na internet onde você já encontra arquivos de graça pra impressão 3D, mas também existem arquivos pagos. E de qualquer forma, a indústria da música continua existindo. Ainda existe dinheiro em torno dela, ainda existem artistas vendendo sua música. Não acredito que a indústria da moda vai quebrar. Ela vai mudar. Vai ser repensada. Não sei o que vai acontecer exatamente, acho que será algo como uma licença, um arquivo que você só pode imprimir uma vez e que não pode ser enviado pra outra pessoa. É um possível problema, precisamos estar prontos pra isso, a indústria da moda deve entender aos poucos. Atualmente estamos experimentando. Quando a Calvin Klein for mandar o arquivo, tenho certeza que não vai ser de graça!

Tags:                    

Compartilhar