Brasileiros distiguem dois padrões ideais de beleza

08.04.2002

Discutir beleza e, mais do que isso, a imposição específica do padrão ditado pelo mundo da moda é como discutir futebol: não tem fim. Mas a indústria da moda não elegeu um padrão apenas pelas belas medidas estabelecidas como ideais (90 de busto, 60 de cintura, 90 de quadril). Está mais do que provado, é este padrão que faz uma roupa ficar mais elegante, bonita e até especial mesmo, distinguindo uma modelo de uma bela mulher que se vê na rua.

Mas no Brasil o mais gritante no mercado de modelos é a diferença entre o padrão ideal para a publicidade de cerveja e o ideal para a publicidade de moda. O 1º busca a típica mulher brasileira, cheia de curvas e não muito alta – a gostosa, em resumo. O 2º enaltece uma mulher internacional, magra mesmo, de medidas globalizadas que norteiam toda a produção industrial, estabelecendo o que é um manequim 38, 40 ou 44. “Você prefere vestir um bambu ou uma bola?”, dispara Nelson Alvarenga, proprietário da grife Ellus. Já Gloria Coelho, proprietária das marcas G e Carlota Joaquina, considera “simples e pobre” a imagem dos anúncios de cerveja: “Acho que não é uma imagem verdadeira. Será que eles não poderiam substituir por algo mais inteligente?”, pergunta.

“Quem faz moda tem que vender a roupa e não a mulher”, afirma Marcelo Sebá, da agência Blush Branding, especializada em moda. “Eu desafio qualquer pessoa a fazer um desfile com 30 modelos manequim 42 e ver se a roupa fica bem mostrada nessa mulher. Até a Gisele Bündchen teve que emagrecer para entrar no padrão,” diz. Claro que há exceções, como as baixinhas Kate Moss e Devon Aoki, que medem menos de 1,70m e, mesmo assim, foram aceitas sem problemas pelo mercado. “É bom esclarecer que a roupa é mostrada na modelo de 1,78m de altura e 89 cm de quadril, mas é feita nas medidas das modelos de prova que têm o padrão da brasileira: 1,68 m de altura e 92 cm de quadril”, afirma. Segundo ele, prova disso é o sucesso do jeans brasileiro no exterior, que surpreende européias e americanas por valorizarem o bumbum. “A Kate Moss levou 14 calças jeans quando esteve no Brasil”, conta.

Sebá lembra também que é a elegância e a atitude da modelo ao “carregar a roupa” que comunicam para o consumidor que tipo de atitude aquela roupa pede. “A roupa desliza com perfeição nas mulheres mais magras, ganha outra dimensão, é como se fosse uma surpresa”, afirma Gloria Coelho. Apesar disso, Gloria privilegiou em seu desfile de inverno a atitude e não a esbelteza: “A personalidade era o requisito mais importante na seleção das modelos. Tinha uma menina, a Isabel Zachow, que veste 40 mas foi muito importante para o desfile”.

Alvarenga afirma que a modelo não precisa ser anoréxica: “Mas a mulher magra tem muito mais postura, é mais longelínea. Os padrões mudam. 5 anos atrás, os modelos homens eram bombados, fortões. Hoje isso não é mais bacana”, conta. Para ele, a questão tem equivalência no mundo animal: “O que é mais elegante: uma égua inglesa ou um elefante?”

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