Basso & Brooke vêm como convidados para a SPFW

06.06.2005

Eles prometem ser para os anos 2000 o que Emilio Pucci foi nos anos 60, imprimindo uma explosão de cores e um crash de estampas na moda. Trata-se da dupla Basso & BrookeBruno Basso, um santista de 27 anos, e Chris Brooke, um inglês de 31. Seu slogan: Power Print (a força da estampa). Vencedores no ano passado do prêmio britânico Fashion Fringe para jovens talentos, eles estrearam na última temporada de Londres e lançam uma prévia da próxima coleção, que será lançada lá somente em setembro, na próxima São Paulo Fashion Week, que acontece entre 28 de junho e 4 de julho no Ibirapuera.

De Londres, onde moram, eles falaram com exclusividade ao Estado sobre estilo e carreira. Basso, que não voltou para o País desde que se mudou para lá em 2001, disse que está “orgulhoso por levantar a bandeira do Brasil e ansioso para mostrá-la” em sua terra natal. “Nunca fui à SPFW, mas sempre ouvi falar bem. Hoje já é considerada a quinta semana de moda mais importante do calendário mundial”, diz. “Já fizemos desfile em Moscou, Singapura e Saint Tropez, mas ainda não estivemos na América Latina, que é um mercado forte e eu, como brasileiro, gostaria de ver minha marca consolidada aí também”.

Consolidação é uma palavra muito presente na vida da dupla neste último ano. Além do prêmio em si (a quantia nada desprezível de cem mil libras) e muita mídia, eles conquistaram um contrato com o poderoso grupo italiano Aeffe, o mesmo que produz, comercializa e distribui marcas como Jean Paul Gaultier e Narciso Rodriguez. Resultado: de seis pontos de venda pularam para 43 no mundo todo.

Mas o que afinal Basso e Brooke trazem de novo para a moda? Eles trabalham com estamparia digital (e não mais silk-screen) em sedas, lãs e até peles, em larga escala. E imprimiram literalmente uma irreverência e ousadia logo de cara. Na premiada primeira coleção, desenharam pênis, peitos, vaginas e flores eróticas em estilo art-nouveau – por “pura vaidade”. “Mas agradamos até as velhinhas que não enxergavam a forma em si e gostavam da imagem no todo”. Antes disso, haviam estampado os mesmos desenhos em artigos para casa: de toalhas de mesa às almofadas. “A gente gosta de brincar, de provocar o chamado bom gosto burguês. Você nunca imaginaria um pênis numa luva para forno”, diverte-se Basso, que na época estava “apaixonado” pelo artista belga Christo, expert em transformar espaços públicos como a Pont Neuf em Paris e mais recentemente o Central Park de NY. “Estudei sinestesia e gosto de trabalhar imagens que não são o que parecem”, diz Basso, que tem formação em Comunicações e design gráfico e é o diretor criativo da marca. Já Brooke, que é o diretor de moda, estudou na famosa escola Saint Martins, em Londres, e trabalhou como stylist no show biz, vestindo nomes como Kylie Minogue e Joss Stone.

Mas pessoas ficam à vontade usando roupas com desenhos pornográficos? Eles garantem que sim. “É preciso ser um observador atento para encontrar essas formas. Numa visão geral, elas não aparecem. Além disso, nossa cliente tem dinheiro, ironia e inteligência o bastante”. Hoje, o tom de ironia e crítica social se mantém, mas nada tão explícito como na estréia. A coleção que está à venda, com vestidos de festa em torno de 3 mil libras, é inspirada na lenda de Súcubo, figura demoníaca que vinha se deitar com os homens perturbando-lhes o sono. Em 70 estampas, eles ilustram essa história do folclore medieval como se fosse um livro: “Cada peça traz um pedaço da história e nenhuma roupa repete o mesmo desenho. Nossos desenhos são alegorias de poder: do rico e do pobre, da princesa e da escrava, tudo muito poético”.

Se Basso brinca com o imaginário nas estampas, Brooke brinca com as formas na modelagem. A alfaiataria é seu forte – uma base quase clássica que dá suporte a tanta irreverência. Mas Brooke também gosta de subverter a forma. Com as medidas da cliente, é feito um molde virtual e sobre ele, a aplicação da estampa. Se a cliente quer valorizar os seios, basta um jogo de luz ali. Se quer diminuir a cintura, aplica-se uma sombra e por aí vai – um processo quase gestáltico, que funde recursos de alfaiataria e pintura. E graças à Aeffe, desenvolvem modelagens específicas para cada continente, respeitando o biótipo de cada um.

E ser brasileiro, ajuda ou atrapalha? Basso garante que sua origem só ajuda: “A gente tem uma alegria que agrada o mundo todo”. Há menos de um ano no mundo da moda, ele diz que a obrigação de se renovar a cada seis meses é muito excitante e veio de encontro ao seu estilo workaholic: “Vivi de jet-lag nos últimos meses, trabalhando 16 horas por dia”.

Para a estréia aqui, a dupla vai desfilar pela primeira vez uma linha de moda praia em meio aos 30 looks. A “alegoria do poder” agora é sobre vaidade e beleza num estilo bem pop – mais para Jeff Koons do que para Andy Warhol, frisa Basso. “Vamos falar do caos provocado pela vaidade”. Entre as referências, uma série com natureza morta de produtos de maquiagem e beleza, e outra de poodles caracterizados: do black power ao Chanel. Tudo muito colorido. Pra perua nenhuma botar defeito.

Lilian Pacce

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