Balanço do inverno 2005: romantismo, ciganismo…

26.01.2005

Depois de 25 desfiles no Fashion Rio e 47 no São Paulo Fashion Week, a cara do inverno ganha contornos claros. E depois da imersão fashion no prédio da Bienal ao longo desta semana, aí vai um balanço dos melhores momentos da temporada.

Romantismo –
A tendência das saias rodadas se enraíza no inverno 2005 vinda dos anos 50 e cria uma febre couture entre os estilistas: a maioria quis se mostrar fazendo roupa de luxo, como nos grandes ateliês da época. Até as modelos adotaram a pose de açucareiro, com as mãos na cintura. A roda da saia chega a ter 35 metros de pano (para armar o vestido de Marcelle Bittar no desfile do Sommer). Pode ser molenga, como a floral de Isabela Capeto, ou estruturada, como os modelos de Lino Villaventura. As nesgas ajudam a ganhar volume. São monocromáticas na Huis Clos ou de patchwork na Cavalera. Os tecidos vão da mais nobre musseline de seda à pop malha de algodão. Idem para os volumes balonês, que apareceram até em bermuda jeans (Zoomp).

Ciganas – Os looks vêm com um monte de panos, sobreposições e babados, de preferência de patchwork. É o espírito nômade. Vem daqui o novo comprimento que é longo – mas não se preocupe que continuam OK o míni e o pelo joelho. O longo começa a entrar na vida cotidiana. Vai até o supermercado com um chinelo ou tênis, vai para um jantar social com um belo sapato. O folk entra em ação em bons resultados na Cori, André Lima e Patachou, e na etnia da Neon. Entre um babado e outro, muita rendinha, como na Ellus. A amplidão acolhe o corpo em megaponchos de tricô de André Lima, nos caftãs da Neon, nos casacões arredondados da Zoomp, Patachou e Raia de Goeye. E até nos mantôs de Glória Coelho. Na coleção de Gloria, aliás, o longo não tem nada de folk nem cigano, mas é a proposta mais antenada da estação: luxuoso na construção, no material e na forma, ele é usado com jaqueta ou casacão amarrado na cintura e uma ótima galocha.

Viagem – Os estilistas realmente viajaram a trabalho. Islândia, Polônia, Sevilha (Espanha), Japão, Patagônia e Bahia foram alguns destinos que eles trouxeram para a passarela. A Cavalera abriu o livro de história do Brasil para criar sua imagem vintage-romântica. E Ronaldo Fraga imprimiu o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Cortinas – Ganharam os desfiles que aconteceram em lugares que falam por si só, como o da Raia de Goeye no teatro Municipal e o da Neon no teatro Oficina. A influência teatral tomou conta das apresentações. Em vez do entra e sai de modelos, os estilistas criaram grandes tableaux vivants na passarela: Renato Loureiro, Sommer, Reinaldo Lourenço, Isabela Capeto, Lorenzo Merlino e Érika Ikezili. Em média, os estilistas mostraram 30 looks por desfile, sem troca de roupa entre os modelos. O veludo das cortinas e poltronas chega às roupas da Forum, Raia de Goeye, Gisele Nasser e Reinaldo Lourenço, entre outros. Do clássico vermelho ao verde oliva, em drapeados, franzidos e muitos pingentes, como os acessórios que o inglês Judy Blame desenvolveu para Reinaldo. Na Patachou, as cortinas se transformam em preciosos bordados de correntes de ouro aplicadas em camisetas de crepe de tricô. Uma camiseta chega a ter 550 g de ouro 24 quilates. Ou seja, cerca de R$ 30 mil só de ouro bruto, sem contar nenhuma mão-de-obra.

Chave-mestra – O vestido é a peça central e atende a todos os estilos, especialmente o desejo do antigo e usado, isto é, do personalizado. A maioria tem cara de camisolinha antiga, com nervurinhas, ponto smock, rendinhas e brilho de pedrinhas e bordados. Na Triton, é solto e curtinho. Gisele Nasser gosta dos esvoaçantes. A Forum, do recorte Império. E Alexandre Herchcovitch resume o momento escapista no vestido de látex transparente com flores e pássaros.

Zumbido – A saúva virou mascote da temporada em bordados suntuosos de Fause Haten e da Cavalera. Tem também aranha, besouro, libélula, borboleta, pingüim e paisagens de neve (Osklen, Triton, Sommer). Uma estação natureza que traz flores até para os homens, como na jaqueta jeans da Vide Bula ou nos buquês da V. Rom.

Uniforme – Jaquetas e cores militaristas quebram o romantismo na Ellus. A figura do Smile bordada com botões quebra a sisudez incômoda dos milicos da British Colony, que traz também camuflados tropicais. Para Alexandre Herchcovitch, o camuflado é leve como as nuvens de um céu azul no trench-coat de laise impermeável. Galões dourados ganham a alfaiataria de lã de Eduardo Suppes e o jeans da Triton.

Calças – Não são peça importante, mas ninguém pode viver sem. Vêm sequinhas e justas até para os homens (Osklen, Ricardo Almeida, Sommer, V.Rom, Herchcovitch). Vale moletom, lã, jeans e stretchs de última geração. Vão bem dentro da bota dele e dela. O contraponto sai dos saruels, com cavalos baixos e fofos, afunilando embaixo.

Beleza – Para a mulher, o destaque é o cabelo com volume natural, meio bagunçado ou com trança desmanchando. Chapinha fica melhor nos homens – como o ruivo Constantin.

Cores – Verdes, marrons, roses e berinjela são as principais. Teoricamente, o preto está tão baixo quanto as temperaturas que os estilistas estão esperando para vender suas criações mais quentes, como os tricôs manuais, rústicos, bem grossos.

Tops e new faces – Além das roupas, os fashionistas gostam de apostar em modelos. Se a temporada passada consagrou Carol Trentini, desta vez a gauchinha Jéssica Pauleto, de apenas 14 anos, bateu o recorde da estação: participou de 31 dos 47 desfiles em SP e de 20 dos 25 do Rio. Modelo há apenas sete meses, é a mais nova candidata a top. Outro destaque é Amanda Lopes, 16 anos, que chama atenção por ter um rosto mais exótico e nariz forte. Moderna, segura a onda de um desfile mais fashion como Fábia Bercsek ou Alexandre Herchcovitch, mas também faz bonito nas passarelas mais clássicas como a Cori. Fez 16 desfiles. Quem também está em ótima forma é a morena Juliana Imai, de 20 anos. Gaúcha de ascendência japonesa, ela apareceu na edição de verão 2004 do Fashion Rio, que rolou em julho de 2003, e desfilou grávida de quatro meses para Carlos Tufvesson. Na última temporada internacional, desfilou para Alexander McQueen, Dolce & Gabbana e Dior, entre outras. Aqui ela finalmente “apareceu” e fechou maravilhosamente bem o desfile da Neon, entre outros. Carol Francischini está na sua fase mais linda. Com apenas 15 anos, anda com leveza e um frescor. Bruna Erhardt chegou perto de Jéssica no número de desfiles. Esteve em 30 deles. Bruna tem 16 anos e vem de Imbituba (SC). Juliana, Carol e Bruna, entre outras, viajam agora para Nova York para os castings da temporada internacional. Entre os meninos, destacam-se Felipe Brescovice e Fernando Johann, da IMG. Felipe, de 16 anos, é de Bento Gonçalves (RS) e estreou com tudo nesta temporada: pegou 20 desfiles. Nunca saiu do Brasil nem conhecia SP. Ainda está se acostumando com a nova vida. Fernando é mais tarimbado. Mais velho do que a média, com 26 anos, ele foi descoberto em Chapecó, em Santa Catarina. Ano passado, trabalhou para a marca Hermès e em fevereiro embarca para o Japão. E o ruivo Constantin Lubbe? Um dos rostos quentes da agência Ford, ele encantou a equipe da Calvin Klein, onde fechou exclusividade para o desfile da marca. Já fotografou também para a revistaV Man“.

Lilian Pacce (colaborou Camila Yahn)

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