Acessórios resgatam a cultura africana em tecidos de Moçambique

28.02.2017

“Changane” é um termo de Moçambique e significa “enfeitar-se”. Inclusive, é lá que Cris e Ana Paula Mendonça vão buscar os tecidos pra criar as peças da Xongani, que tem como carro-chefe o turbante e seu processo completamente artesanal. A intenção é sempre colorir e resgatar a cultura africana no Brasil! A Cris é mãe de Ana Paula e as duas tem uma forte relação com essa cultura, especialmente no que diz respeito ao empoderamento da mulher negra. Veja a entrevista abaixo que fizemos com Ana Paula e depois confere as peças na galeria:

Como surgiu a Xongani?
A gente brinca que a Xongani sempre existiu em nossas vidas porque minha mãe é uma mulher negra consciente – ela que desenvolvia acessórios pra mim, e assim encontrou uma forma de me colocar e me encontrar como uma mulher negra. Mas não era uma empresa, era só pra mim! Sempre pesquisei sobre o design africano e no final da faculdade fui pra Moçambique conhecer o país. Lá encontrei os tecidos africanos, me identifiquei imediatamente e comecei a trazê-los pra cá. Quando minha mãe, Cristina, começou a fazer os produtos que ela sempre fez nos tecidos que eu trouxe da viagem, as pessoas começaram a pedir. Daí percebemos que era uma demanda do mercado que poucas pessoas atendiam. O que despertou a vontade de ter a marca não foi uma coisa muito positiva, afinal: foi o racismo e a invisibilidade da mulher negra. Percebemos que o mercado, apesar da população negra ser maioria no Brasil, não nos atende. Quando vi que tinha potencial, qualificação e capacidade de atender essas pessoas, quis, além de trabalhar, transformar isso na minha militância. De alguma forma, pela moda, tentamos diminuir esses impactos do racismo no Brasil.

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Como você entende o empoderamento da mulher negra?
Pra mim, ele significa consciência da nossa história, da luta de nossos ancestrais, do que eles fizeram pra que a gente se fortaleça e consiga continuar nossa caminhada, sempre humanizando a mulher negra que foi desumanizada por muito tempo. Ser uma mulher empoderada é agir coletivamente, nunca individualmente, pra resgatar o que nos foi tirado pela história. Conhecer os passos de nossos ancestrais pra que consigamos dar outros passos pros que estão por vir. Fazemos isso diariamente, contribuindo umas com as outras, criando um mercado que nos contemple. Hoje isso continua sendo feito de uma forma muito fortalecida, que parece muito mais visível, porque a gente criou um meio de comunicação que facilitou toda essa conversa. Isso extravasa na estética, como usar meu cabelo natural, por exemplo. Extravasa em um discurso consciente, no jeito de se vestir consciente, na economia, na educação, na forma de passar essa informação pros demais… Mas acho que isso só o estopim de uma trajetória muito anterior!

E a importância do turbante nisso tudo?
O turbante é um dos nossos símbolos, um dos nossos discursos estéticos pra dizer. Sempre falo que a moda comunica, a moda é uma forma de mostrar nosso discurso a partir do que a gente veste.

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Os tecidos utilizados vem de Moçambique. O que vocês consideram mais especial neles?
Os tecidos se chamam capulana e os utilizamos por eles terem uma identificação muito efetiva. Não percebemos como estamos mergulhados em informações eurocentradas. Usar um tecido africano que tenha uma nova padronagem e uma nova leitura de estampa, por exemplo, é se perguntar se só existe um lugar no mundo, se existe só a Europa. É quase um grito avisando que existem outros mundos; essa é a ponte que acabamos fazendo, uma nova visão de mundo. E é muito gostoso usar um tecido que é assimétrico, que tem combinações de cores muito diferentes do que estamos acostumadas a comprar e ver aqui no Brasil. Quando usamos esses tecidos no corpo, também fazemos essa conexão com a África que foi inviabilizada por tanto tempo no país.

O que a Xongani deseja mostrar pro mundo?
A resistência, resiliência, lutas e conquistas desses homens e mulheres negras. E também é um debate pra gente demarcar, ser protagonista da nossa história. Por muito tempo a nossa história foi contada pelos outros, então acho que a Xongani é uma forma da gente contar a nossa versão, utilizando a partilha de conhecimento que é tão característica dos povos africanos. E por que não fazer essa partilha de conhecimento a partir da moda?

Xongani: (11) 3729-3829

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