O fundador da Bottletop dá dicas pra quem está começando

31.10.2018

Lá pelo ano 2000, Cameron Saul foi viajar como voluntário pra Uganda pra ensinar educação sanitária pra crianças – era um jeito de se aventurar e explorar o continente africano. Mas isso acabou transformando sua vida, e hoje ele é um dos nomes à frente da Bottletop, marca referência no cruzamento moda e sustentabilidade. No Brasil, os acessórios da Bottletop começam a ser vendidos em dezembro na NK Store. A gente conversou sobre a história e os valores da marca com Cameron, aproveitando sua última passagem pelo Brasil pra participar do ciclo de palestras e debates Iguatemi Talks. Quer conferir? Vem!

Como foi sua experiência em Uganda?
A vida naquela comunidade tinha mais a ver com sobrevivência do que ter a bolsa da próxima estação. Foi um chamado poderoso pra mim, em termos de como o resto do mundo vive; somos obviamente muito privilegiados do nosso lado. E também foi muito empolgante fazer parte de um projeto e um processo onde víamos gente jovem engajada e excitada em resolver questões de saúde, especialmente quando usávamos criatividade pra engajá-los. Música, teatro, discussão – as crianças acabavam aprendendo sem perceber. Percebi que era esse tipo de trabalho que eu queria apoiar. E foi lá que uma garota com quem estava morando e trabalhando trouxe uma bolsa feita de tampas de garrafa [“bottletop” em inglês] de uma feira de artesanato e imediatamente me apaixonei. Era tão bacana e útil.

E onde entrou a Mulberry?
Voltei de Uganda pra Londres e comecei a trabalhar lá. Eventualmente recebi algumas amostras das bolsas feitas com as tampas e adaptamos o design usando o resíduo do couro do chão de fábrica; era um resultado 100% upcycled, produzido lindamente, de uma maneira muito luxuosa. Portanto a Bottletop já começou com uma colaboração. Lançamos o produto em uma campanha com o fotógrafo David Bailey na “Vogue” UK, e essa bolsa se transformou na bolsa mais vendida pela Mulberry no mundo! Levantou bastante dinheiro e a renda foi dirigida pra ONG com a qual trabalhei em Uganda; além de ter dado trabalho pra artesãos do Quênia e da África do Sul, que faziam a estrutura da bolsa. 

E vocês continuam com essa fórmula até hoje?
Sim, 16 anos depois temos a fundação Bottletop, que levanta dinheiro pra educação sanitária, e a marca de moda Bottletop, que financia as operações da fundação. Existem hoje projetos que a gente baliza em Salvador, Rio… Mas nesse meio tempo, é importante contar também que viemos pro Brasil por volta de 2006, 2007, e descobrimos um artesanato extraordinário por aqui. Estávamos na verdade a procura de música, pois preparávamos um álbum pra levantar mais capital pra fundação. Conseguimos músicas de artistas consagrados como Jorge Ben e Seu Jorge e coisas mais obscuras de jazz e bossa nova; e juntamos isso com gente da música eletrônica pra remixar essas faixas. A Bottletop gosta de cruzar culturas e elementos, criando diálogos.

Lais Ribeiro posa com uma das bolsas da Bottletop feitas com lacre – vem saber mais da marca
A principal matéria-prima da Bottletop são os lacres de latinha descartados
Eles são combinados com outros materiais e se transformam!
Aparecem também em detalhes – como nesse caso, na alça da bolsa
Esse é o Cameron Saul, fundador da Bottletop
Existe uma preocupação com toda a cadeia, dos artesãos que trabalham pra marca até os fornecedores de matéria-prima
O começo: uma parceria com a Mulberry, ainda com tampinhas de garrafa
Aqui a loja da Regent Street, produzida com tecnologia de impressão 3D!

Foi aí que surgiu o lacre?
Fomos ao Mercado Modelo em Salvador nessa época e encontramos algumas dessas bolsas feitas de lacre de latinha, sobre as quais a mãe do meu sócio já tinha falado. É como um tecido eco, ficamos fascinados. Assim, começamos a estudar como produzir bolsas com os lacres de uma forma que tivéssemos um impacto real e positivo na vida dos locais. Incrementamos o design; combinamos com outros materiais sustentáveis como o couro de zero-desmatamento da Amazônia, que é de fazendas que protegem a floresta no lugar de desmatá-la pra pecuária… 

E desde então vocês também trabalham com o Brasil.
Sim, nesses últimos 12, 13 anos que trabalhamos no país já criamos um ateliê e um programa de trainee em Salvador. Hoje também desenvolvemos coleções no Quênia, no Nepal e em Bali, mas não são ateliês nossos, o do Brasil é o principal e é nosso; por isso nos consideramos um híbrido britânico brasileiro, o que é incrível!

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Hoje o hit da Bottletop ainda são os itens feitos de lacre?
Sim, ainda é com eles que as pessoas enlouquecem. Hoje usamos o material de diversas maneiras. Cada vez mais as pessoas estão prestando atenção em como consomem, e nos impactos desse consumo no planeta. O lacre é algo com o qual a gente lida todos os dias, o adaptamos de maneira mágica no qual ele até fica disfarçado, mas ele segue sendo um lacre. Acho que as pessoas gostam disso, de que elevamos o status dele e o transformamos.

Você sabia que lacre é uma gíria no Brasil?
Não, não sabia!

É usado quando alguém fala algo de muito impacto, que engaja, e as pessoas respondem: “lacrou!” Como se tivesse colocado um ponto final na discussão.
Não tinha ideia, que interessante! Achei o máximo!

E é engraçado porque…
Sim, porque é o que a Bottletop tenta fazer!

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Você acha que as pessoas que compram produtos da Bottletop sabem de toda essa história por trás deles?
Provavelmente há um espectro de clientes. Alguns sabem em detalhes; outros só compram porque é uma bolsa incrível, e a usam porque gostam do design. Mas tentamos garantir que os clientes se informem sobre o “como” e o “porquê”, pois isso tem muito valor. 

E como vocês contam essa história?
Principalmente com o nosso time de vendedores. Essas coisas são passadas de maneira mais genuína pessoalmente; claro que você pode ler algo e isso ter bastante impacto, mas se alguém te conta uma história com paixão, você sente de maneira diferente e vai lembrar da história de maneira diferente. Agora que temos nossa flagship na Regent Street [em Londres, como a gente já contou nesse post] podemos trazer as pessoas pra dentro do nosso mundo, deixá-las inspiradas num outro tipo de interação.

Porque a loja é uma experiência nova.
Muita gente ouviu falar de impressão 3D mas não necessariamente a experimentou [grande parte dos elementos da loja da Regent Street foram feitos com impressão 3D]. Trazer essa experiência de um jeito positivo e acessível é tão importante, a moda é um veículo incrível pra isso. Acho importante que os estilistas aproveitem essas oportunidades de engajar pessoas em um debate maior, de mostrar que comprando e usando algo que você já gosta também dá pra causar impacto no mundo de uma outra maneira. É bom que a sustentabilidade agora faça parte dos debates, pois ela é nossa razão de ser. Não estaria fazendo isso se não fosse obcecado por design, pelo processo criativo, mas é empolgante que isso ainda possa ser feito com um impacto positivo, indo muito além do produto.

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As marcas te procuram pedindo conselhos sobre como entrar na sustentabilidade?
A real é que estamos todos aprendendo, todos numa jornada, dando conselhos sempre que podemos pra pessoas que querem fazer a diferença. Espero que essa nova era na qual estamos entrando seja uma onde é OK perguntar, é OK não saber, é OK errar e é ótimo se você tentar. Acho que o cliente aprecia essa honestidade e autenticidade, os esforços pra fazer melhor e adotar novas práticas, abordagens e materiais, uma nova mentalidade. É isso que se quer hoje, todos precisamos chegar em caminhos diferentes pra preservar e proteger o planeta pra futuras gerações.

É que a Bottletop já nasceu com essa mentalidade, né, e outras marcas precisam mudar a delas.
Exato, é um processo bem diferente. Mas não é impossível. É uma vantagem competitiva, também, se quiser remover a filantropia e altruísmo da conversa; do ponto de vista dos negócios as marcas não podem se dar ao luxo de não ser [sustentáveis], ainda que não liguem, ainda que não se inspirem a fazê-lo. Elas não podem deixar de ter uma cadeia de fornecedores limpa, pagar seus funcionários de maneira justa, todos esses fundamentos. Especialmente as grandes marcas, que tem essa responsabilidade de liderar e ser o exemplo. Não podemos deixar que seja apenas uma modinha passageira, chegamos muito longe e já ultrapassamos essa fase. Entendo que existam marcas aterrorizadas pois isso não faz parte do DNA delas. Mas elas só vão perder se não começarem a se mexer, o mais rápido e o mais inteligentemente possível. Quanto mais elas limparem essa cadeia, mais valor elas vão ter: em termos de senso comum, de imagem de marca, de funcionários. A verdade é que não precisamos de mais coisas. Então as marcas que vão se destacar agora são as que continuam fazendo as coisas mais bacanas, maravilhosas e dramáticas, mas que também arrasem na questão da sustentabilidade, debatendo o assunto de maneira dinâmica como as redes sociais nos permitem hoje, compartilhando conteúdo. É nesse lugar que a moda se nivelou agora.

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Quais conselhos você daria pra designers e estilistas que estão começando uma nova marca?
Como reduzir sua pegada ecológica e aumentar o lucro? Não há resposta fácil pra isso. Se houvesse, estaríamos todos seguindo-a! [Risos] Mas acho que tem a ver com qualidade na execução e no design, um enfoque desmedido no gerenciamento dos fornecedores e um entendimento sobre suas matérias-primas, de onde elas vêm, por que e qual impacto elas geram. Sempre observe onde você pode fazer melhor e se esforçar mais nisso. E conte essa história de um jeito esperto; existe uma caixa de ferramenta pra isso chamada redes sociais que nos permite compartilhar e espalhar informação de maneira poderosa de graça. 

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