Dener, uma vida de luxo

Segunda-feira (14/12), o sociólogo Carlos Dória lança  “Bordado da Fama, Uma Biografia de Dener” (ed. Senac, 204 págs., R$ 30) com coquetel na nova sede do Senac, no bairro da Lapa, e terça ele autografa na livraria Cultura. No livro, Dória relata a vida de Dener Pamplona de Abreu (1936-1978), considerado o 1º costureiro brasileiro e talvez o maior que o país já viu.

O personagem por si só é fascinante o bastante. Foi Dener, por exemplo, que determinava o que era “um luxo” e o que era “um lixo” no programa de Flavio Cavalcanti no começo dos anos 70, na extinta TV Tupi. Foi Dener o primeiro costureiro a vestir uma primeira-dama, Maria Teresa Goulart, de quem ficou amigo íntimo. Foi Dener o primeiro estilista a sofrer um atentado político – uma rajada de metralhadora contra seu Lincoln presidencial preto em julho de 68. Foi Dener que transformou a ópera “Carmem” em música acelerada em um desfile em 1970.

Com esses fatos saborosos, Dória conta a história do que chama de “uma obra de ficção de si mesmo”. Ficção por ficção, o autor mantém a lenda em torno do personagem e não se atreve a esclarecer o que é fato do que é fantasia, sustentando o intenso marketing pessoal cultivado por Dener, que manipulava os fatos com maestria e criava histórias tão fascinantes que ninguém ousava duvidar – nem os amigos nem a mídia. “Eu procurei desenhar o mito que foi fabricado pela sociedade paulista e pela imprensa; no fundo, ele representava um modo de viver muito elegante”, conta Dória. “O que eu pude fazer para chocar e chamar a atenção eu fiz. Só não fiz mais porque não sabia o que poderia fazer ou a polícia não deixava”, dizia Dener.

Pessoal, social e profissionalmente, a vida de Dener é pontuada de excentricidades. Para receber o milionário playboy alemão Gunter Sachs a pedido de Caio Alcântara Machado, Dener vestiu suas copeiras com roupas de baiana, decorou sua casa no Pacaembu com as cores brasileiras e imaginou uma gaiola com pássaros exóticos sobre cada mesa. Como não os encontrou, comprou pombas e resolveu pintá-las e enfeitá-las. Tinha até pomba com pena de faisão. Só que no meio da festa, as pombas caiam estateladas, intoxicadas pela tinta em suas penas. Felizmente, graças à rebuscada decoração das gaiolas, os convidados não perceberam o desastre.

Para participar da encenação da Paixão de Cristo na tradicional festa de Nova Jerusalém (PE), Dener preparou um modelo de marajá de cetim azul, com turbante de seda branca adornado por uma imensa esmeralda. Carregado por escravos, sua fala era breve: “Herodes, sua festa é um luuuxo”. E a multidão de 50 mil pessoas foi ao delírio.

Entre uma declaração bombástica e uma festa badalada, Dener gostava de imergir na banheira com água quente e bicarbonato de sódio (para “regular seu metabolismo”) e, em seguida, trocava a água por litros de leite (para “dar viço à pele”). Suas olheiras eram valorizadas com uma boa camada de vaselina. O cabelo era minuciosamente despenteado. Os lençóis de linho irlandês eram trocados diariamente. Os colarinhos sociais tinham 9 cm de altura (“Não dá nem para mexer o pescoço, mas não importa porque só gosto de olhar as coisas de frente”).

Entre tantos fatos, há muita fantasia, segundo seu ex-assistente José Gayegos, hoje proprietário da casa do Pacaembu e patrão de Pierre, o fiel mordomo de Dener. “A biografia é mesmo um pouco ficcionada; o capítulo 4, por exemplo, concentra vários dias da vida de Dener em apenas um”, diz Dória, 48 anos, sociólogo habituado à linguagem de ensaios, “que pedem a demonstração de um teorema, enquanto a biografia é uma sucessão de lacunas”. “Dener dizia ter 200 clientes, mas na verdade eram no máximo cem – as cem que frequentavam as festas que ele mesmo promovia para vender seus vestidos”. E ressalta: “Durante as entrevistas para o livro, ninguém mencionou a vida comercial de Dener que, ao final, fazia vestidos de noiva na rua São Caetano e morreu na miséria, enterrado no túmulo da colunista social Alik Kostakis“.

Sua vida sexual extra-conjugal também passa batida. A citação mais explícita é a da entrevista ao “Pasquim“. Perguntado sobre suas experiências homossexuais, saiu-se assim: “Não é muito meu gênero. Sou uma pessoa que normalmente se impressiona com a beleza… beleza é fundamental. As experiências devem ser muito na base da beleza”.

Nascido em Belém do Pará em 3 de agosto de 1936, Dener começou a desenhar para a tradicional Casa Canadá, no Rio, em 1950. Seu pai morreu quando ele tinha 9 anos. Em seguida, mudou-se para o Rio com a mãe Eponina (ou Lolita), hoje com 92 anos. Em 58, ele ganhou o prêmio revelação paulista da Rhodia (que, dois anos depois, caberia a Clodovil, uma disputa eterna que leva Dória a chamá-los de Mozart e Salieri da alta-costura).

Instalou-se em São Paulo em 1960, quando a rua Augusta começava a se tornar a passarela da moda. Bem relacionado, eclético e generoso, frequentava redutos gays, vestia as Matarazzo, Simonsen e Trussardi e as cantoras Maysa, Tuca e Elis Regina, de quem foi padrinho do casamento com Ronaldo Bôscoli. Apadrinhou também o costureiro Ronaldo Esper e a poeta Hilda Hilst, era amigo de Guilherme de Almeida, virou poema de Lupe Cotrim. Suas festas superavam em pompa e circunstância as de suas clientes.

Seus desenhos eram irretocáveis. Em 63, diante da notícia de que Jacqueline Kennedy viria ao Brasil, a primeira-dama Maria Teresa Goulart convocou em Brasília dois costureiros do Rio e Dener, de São Paulo. Queria escolher quem seria seu Oleg Cassini, o costureiro oficial de Jackie. A visita acabou não ocorrendo, mas Dener ganhou o posto desejado e Maria Teresa tornou-se sua modelo ideal. Logo constava da lista das dez mais elegantes. Meses depois, ele foi tema de reportagem da revista francesa “Paris Match“. O título: “O homem mais esnobe da América do Sul”.

Casou-se com Maria Stella Splendore em 1965. Ela tinha apenas 16 anos e, desde o exílio da família Goulart, nenhuma mulher havia brilhando tanto junto a ele. O vestido de noiva era um deslumbre: um longo de seda pura bordada com minipompons de vison e cauda de 15 metros de tule francês. O casamento teve apelo de pop star e uma inesperada multidão se aglomerou na Igreja do Carmo atrapalhando até o sermão do padre pelo microfone. O casamento acabou em 69. Seis anos depois, Dener casou-se com Vera Helena, ex-Jordan, sua cliente, amiga e conterrânea. Já fazia parte do candomblé e sua casa na Granja Viana chamava-se Chácara Olorum. Sempre cercado por seus cães, foi lá que enterrou a dinamarquesa Fedra com toalhas de renda, flores e velas.

Em 66, nasceu o filho Frederico, morto em 85. Em 67, veio a filha Maria Leopoldina, que hoje mora com os filhos no interior de SP. Maria Stella, que vive como Hare Krishna nos Estados Unidos, passou por várias relações durante e depois do casamento: de Juca Chaves ao cirurgião plástico David Serson, passando pelo travesti Ektor e pelo rei Roberto Carlos, cuja relação rendeu a música “A Namoradinha de um Amigo Meu“. Segundo boatos, Roberto Carlos seria o pai de Maria Leopoldina – suspeita que Dener tentou esclarecer ao chamar a filha para uma conversa em seu leito de morte no Hospital do Câncer.

Dez frases-luxo de Dener

1. “Eu criei a moda brasileira, um estilo próprio, nosso, que fez com que as grandes senhoras do país não precisassem mais se vestir na Europa”
2. “Sou mais novo do que a minha importância e mais velho do que a minha aparência”
3. “A mulher chique fica bem com qualquer trapinho”
4. “A mulher elegante não é imitada porque aparece menos nas revistas (…), mas é quem lança a moda e faz os grandes costureiros”
5. “A mulher-luxo é capaz de superar o próprio conceito de elegância (…), é modelo de vida e de comportamento, que não lança a moda, mas a consagra”
6. “Eu gosto de gente, mas acho multidão sempre cafona. Multidão só é boa quando aplaude”
7. “Mulher bonita sem dinheiro só serve para menequim”
8. “É muito difícil para um esteta do meu nível, que precisa estar rodeado de pessoas bonitas, viver bem casado”
9.  “A mulher realmente refinada se veste para si mesma. Até quando faz a maior faxina, está sempre arrumada”
10. “A realização do artista só vem no fim, com a sensação da morte”

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo

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