De caso com… “A Garota do Trem”

17.11.2016

Emily Blunt, o melhor do filme, no papel de Rachel, alcoólatra, desempregada e deprimida, que sofre pelo divórcio recente em uma de suas viagens diárias de trem entre Ashbury e Londres

“Propostas para amores melhores.” Quem é tonto (ou tonta) de se deparar com título tão promissor como este e rejeitar o respectivo texto? Ele estava visível no alto da minha pilha de jornais velhos que seguiria pra reciclagem. Foi salvo pelo título-gongo! O artigo publicado na “Folha de S. Paulo” do último dia 3/11 não pôde se revelar mais pertinente: tratava do filme que eu havia assistido um dia antes, “A Garota no Trem”, uma adaptação do best-seller da britânica Paula Hawkins.

Muito mais interessante do que ler uma crítica antes de ir ao cinema é se deleitar com uma boa pensata depois da sessão, quando você está imbuído do clima da história, da trama, da alma dos personagens ou, no mínimo, ainda não teve tempo de esquecer o nome do filme ou do diretor. O psicanalista e escritor Contardo Calligaris, por exemplo, narrou no jornal os seus “pensamentos na saída do cinema”. É dele o texto com o título assertivo. E o longa em questão é um thriller centrado nos temas casamento, traição, “recasamento” e alcoolismo. Sobre eles, Calligaris destilou pensamentos cruciais e o campeão de todos é: valer-se da série de nossas uniões e desuniões pra antecipar problemas que devem se repetir. “Que tal cada um entrevistar o ex do outro?”, propôs o psicanalista. Afinal, o parceiro (ou parceira) anterior sempre conhece melhor o seu amor do que você.

A gente aqui defende, pro bem dos casais, que considerem a forma como o atual parceiro (ou parceira) terminou suas antigas relações… A probabilidade de repeteco beira os 100%! Toda mãe ou pai, inclusive, devia ensinar às suas filhas e filhos: confere aí como essa pessoa nova na sua vida foi nas suas histórias amorosas e como ela é hoje com os seus ex.

Na adolescência, a prática de considerar o passado do pretendente era comum, com comentários do tipo: “Aquele cara foi muito sacana com a fulana; quero distância!”. Ou “tome cuidado com essa mina, lembra o que ela aprontou com o fulano?”. Mas parece que a gente cresce e emburrece! Ou adquire arrogância e passa a crer, feito príncipes e princesas, que “comigo vai ser diferente”. Ledo engano.

Outro pensamento interessante de Calligaris: “Geralmente, separações acontecem por boas razões, mas na hora a gente esquece isso”. O pior é quando a pessoa nunca chega a lembrar. O resultado tende a ser melancólico: uma vida que segue apegada ao nada, a uma história que foi real mas acabou e agora é só um fantasma – e que assombra de verdade.

O mesmo vale para a banalização da perda e seu respectivo luto. Diz o colunista que “qualquer separação produz o fantasma de uma perda”. Discordo: a perda é megarreal, o luto após o derradeiro fim é fenomenal, inclusive pro parceiro que quis a separação. Banalizar o luto, rejeitá-lo, isso sim é garantia de viver assombrado. Do contrário, sobra crescimento pessoal, um ganho que toda separação tem potencial pra produzir! Aqui vai o trailer do filme!

Bell Kranz, do blog “Casar, Descasar, Recasar”, infohunter do site Lilian Pacce

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