“Animais Noturnos”, o filme corajoso de Tom Ford

27.12.2016

Andes vale uma menção honrosa – a interpretação de Michael Shannon é ótima
Jaula de vidro: Susan em sua casa
O xerife Bobby Andes (Michael Shannon), Ray (Aaron Taylor-Johnson) e Tony (Jake Gyllenhaal)
A própria Susan…
Cenas no carro são constantes no filme: aqui, Jake Gyllenhaal
E tudo bem que não tem figurino Tom Ford no filme, mas esse vestido é a cara da Gucci, né?
Susan, a personagem de Amy Adams em “Animais Noturnos”

Tom Ford fez seu primeiro filmeDireito de Amar” em 2009 e o tom da crítica foi desigual. Teve quem elogiou mas também houve quem criticou a cinematografia extremamente cuidadosa e plástica, como numa propaganda de moda. Quem conhece o trabalho de Ford na indústria fashion, no entanto, já está familiarizado com essa estética dele desde sua estada na Gucci (nos anúncios com o fotógrafo Mario Testino e a stylist Carine Roitfeld). O que se convencionou chamar de porn chic seguiu como uma marca dele após sua saída do grupo Kering, sempre rodeado de polêmica: nu frontal masculino, mulheres-objeto com uma pele tão perfeita que parecem mulheres infláveis, um close em seios com um dos perfumes assinados por ele no meio, podolatria… A lista segue.

Mas qual, então, é a diferença entre o Tom Ford estilista e o cineasta? Ele seguiria nesse caminho mais plástico no cinema? Sim, mas a adaptação do livro “Tony and Susan“, de Austin Wright, que surge como o segundo filme dele – e estreia nessa semana nos cinemas brasileiros – mexe com o significado dessa plasticidade toda. Se a história original trazia Susan como uma professora, aqui Ford a modifica, transformando-a em uma dona de galeria de arte e fazendo com que a trama tenha um pano de fundo e subtextos envolvendo a classe alta americana, o mundo da arte contemporânea (em um contexto mercadológico, até) e as relações amorosas dessa elite intelectualizada. O que pega é que “Animais Noturnos” traz um olhar bem cruel (e muitos diriam realista) sobre tudo isso. Um estilista do mercado de luxo fazendo críticas ao estilo de vida de clientes potenciais em seu trabalho “mais artístico”, que tal? Por essa a gente não esperava… A gente te explica o longa de maneira mais profunda nos itens abaixo – confira:

. “Então vocês querem algo mais imperfeito?” A 1ª cena do filme já foi bastante descrita por aí quando apareceu no Festival de Veneza, mas se você não quiser saber sobre ela, pare de ler agora! Se sim: que tal trazer, logo de cara, um monte de mulheres de meia idade plus size? E mais: nuas, mostrando todo o corpo, se mexendo, sacolejando? Tudo isso com a iluminação caprichada e estética de propaganda de moda, claro, à moda Tom Ford. Parece uma resposta pra quem criticou “Direito de Amar” dizendo que ele era fashion demais. O mais estranho, na medida que a história se desenrola, é que você percebe que essa cena choca apenas num nível estético mesmo – existem situações muito mais estressantes no livro escrito por Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), que nos deixam bem mais incomodados.

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. “A burguesia não fede, mas é bem triste.” Susan Morrow (Amy Adams) deixou uma juventude idealista pra trás e concretizou o seu pesadelo. Virou sua própria mãe, interpretada por Laura Linney, uma mulher burguesa e cheia de valores conservadores, que valoriza sua posição social a ponto de ignorar a crise em seu casamento pra mantê-la. Dá pra entender porque Ford não quis incluir roupas da sua marca no figurino – ninguém ia ter o desejo de vesti-las depois de assistir ao filme! Quem iria querer ser Susan? Ficamos até com pena dela, tipo “pobre menina rica”.

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. “Deserto tenso!” A história do livro que dá nome ao filme, “Animais Noturnos”, e toma conta das cenas enquanto a personagem Susan a lê é bem angustiante e violenta, além de ser quase menos fashion. “Quase” porque ela é habitada por gente linda: o próprio Jake Gyllenhaal mais Isla Fisher e até Aaron Taylor-Johnson no papel de um delinquente. Algumas cenas fortes podem sofrer daquele mal que os críticos já reclamaram sobre a cinematografia à campanha de moda, mas aqui ela se justifica porque quem está lendo o livro e imaginando a história é justamente Susan – esse clima ficcional, portanto, faz sentido.

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. “Mas afinal, a história é sobre o quê?” Cada um pode ter sua leitura, claro, mas a gente acha que ela fala bastante sobre como não dá pra fugir da realidade, transformando-a em ficção. E também sobre a valorização das aparências, o vazio existencial num mundo onde o estético está acima da ética. Ford, mais uma vez, trabalha com uma personagem mulher que é bela, mas sofre com o envelhecimento, com a vida que tem, com expectativas que não são atendidas. Bem diferente da mulher segura de si e da sua sexualidade que ele apresenta na passarela. Ou não?

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