SPFW primavera-verão 2005/06 – Fechamento Segundo dia

29.06.2005

A Zoomp fechou o segundo dia de São Paulo Fashion Week com uma aula de sensualidade quase maquiavélica. Juntou numa única peça dois itens iconográficos do estilo brasileiro: o biquíni e o jeans, num resultado incrível que faz a marca do raio ganhar um novo brilho. A calça jeans superjusta parte da modelagem de um biquíni, com direito à vazado na lateral – páreo para a imbatível calça da Gang numa Isabeli Fontana supersexy. “A Zoomp nasceu do jeans, tem sangue azul mesmo. Nosso primeiro desfile, em 1979, trazia no convite a frase ‘sexy jeans’”, festeja Renato Kherlakian. O maiô também dá a forma aos vestidos de malha de viscose e macacões agarrados ao corpo.
A coleção tão acertada saiu da memória da própria Zoomp, que reativa também a silhueta clochard (calça alta de cintura franzida) mas fica melhor quando traz este volume para o estilo rap, de cintura mais baixa, usada com regata megavazada.
De olho na Londres dos anos 60 – especialmente no estilo Biba e de Zandra Rhodes – a Triton enche sua passarela de tulipas gigantes e brinca de aplica-las de ponta-cabeça em vestidões-bata, como o de Carol Trentini ao final. Essas aplicações florais são o ponto principal e se misturam bem a estampas de girafa. O chapéu romântico na verdade denuncia a malícia do personagem de Jodie Foster no filme Táxi Driver (1976), de Martin Scorsese – mimetizada com perfeição por Jeísa Chiminazzo e sua calça branca de cintura altíssima. O georgete e o voal de algodão dominam os vestidões e as batas, ora soltos ora com lações na cintura. Os shorts bufantes também vêm com cintura marcada. É roupa para meninas muito antenadas…
Em mais uma homenagem nesta temporada, o mineiro Ronaldo Fraga coloca a costureira Nilza em primeiro plano em seu desfile no São Paulo Fashion Week, que vai até segunda-feira na Bienal, no parque do Ibirapuera. Fraga está mais leve sem abandonar os volumes que sempre caracterizaram seu trabalho. É linda a imagem de abertura com a top Carol Trentini usando longo de seda rosa e verde, em tons esmaecidos, entre as máquinas de costura do cenário. A maioria dos vestidos é evasê, de preferência levemente acinturada na frente e solta atrás. O paletozinho de laise branca é vestido do avesso, com seus debruns impecáveis, mostrando que d. Nilza sabe trabalhar bem o acabamento das peças.
O volume godê aparece mais nas saias, com aplicações de flores de tecido ou muitos corações. Entre os muitos bordados, impressiona o resultado das flores metalizadas feitas de latinha reciclada como o vestido verde do final. Na cabeça e nas sandálias, um porta-alfinetes de veludo vermelho. Um bom momento para Ronaldo.
Emocionante a participação especial do cantor Jamelão, de 92 anos, mangueirense tradicional, no final do desfile da Poko Pano. Com o espírito de customização, a estilista Paola Robba tirou a poeira dos biquínis da vovó e fez um desfile inspirado em modelagens dos anos 50 e 60. Mas o resultado não é retrô, e sim delicado, com lacinhos e calcinhas altas, e muita valorização de trabalhos manuais, como o ótimo modelo de crochê turquesa usado por Juliana Imai, ou o uso de cianinhas coloridas em biquínis e maiôs.
Os garotos investem no sungão. “Não tem como fugir, o sungão já é algo já estabelecido”, diz Paola. Pulseirinhas de bolas coloridas e munhequeiras de crochê são os acessórios da marca, que desfilou sua coleção em meio a 6 mil pratos de porcelana e o vozeirão de Jamelão.
Marcelo Sommer anda circunspecto, cada vez mais distante do lado lúdico e streetwear que fez seu nome. Depois da melancolia do inverno na Islândia, o estilista faz uma apresentação cheia de drama invocando a arte tiki da Polinésia. O cenário minimalista trazia pontos de luz para reforçar uma metáfora criada pelo diretor Alberto Renault: “Hoje as pessoas estão em busca do seu verdadeiro eu. As imagens não têm significado específico, mas o uso de espelhos e a postura dos modelos com a mão no pulso são tentativas de se sentir, sentir o bater do coração, a energia dos chakras”, filosofa Renault.
As formas contrastam volumes de babados e camadas à silhueta mais seca e acinturada. O trabalho forte de estampas começou numa viagem à Holanda, onde Sommer comprou os tecidos fabricados exclusivamente para o continente africano, com estampas clássicas dali. Outro esmero foi encomendar botões de cerâmica e madrepérola para dar acabamento aos looks 100% algodão e também de gaze, chamois ou palha _ material eleito para forrar o sapato de salto anabela. As cores seguem a natureza, como os tons de terra, verde e azul.
O revival dos anos 70 e do flower power é inspiração de muitos estilistas para a próxima temporada. O carioca Carlos Tufvensson entrou de cabeça no psicodelismo e começou bem, explorando tons de pink e amarelo em longos fluidos de seda com top de lástex e manga sino. Linda a nova top Cíntia Dicker com coroa flores naturais em seu cabelo ruivo – enquanto girassóis esperavam os convidados em cada lugar da pacífica sala 4, toda branca, no último andar da Bienal. “O verão brasileiro é isso, cor e alegria”, diz o estilista, que explora também degradês de laranja e lilás. Mas infelizmente entre uma estampa floral e um patchwork de tiras de cetim, as modelagens ficam repetitivas e acabam brecando o que podia ser de fato um avanço.
Na Sais, segunda marca da festejada Rosa Chá, tudo é bem simplificado. Na trilha do dj Zé Pedro, só músicas com a palavra “flores” e a margarida foi a escolhida, em estampas ou vazados nos biquínis. Segundo Riva Slama, mulher de Amir, o romantismo dos laços pontua a coleção desde o início, com a onipresente Isabeli Fontana num biquíni de laço gigantesco. As cores são fortes e as estampas quase infantis, como o arco-íris ou a borboletinha aplicada. Aqui, como na maioria dos desfiles de moda praia até agora, a calcinha larga, tipo sunguinha, tem destaque. Parece que as meninas de hoje querem mais é conforto na hora de ir para a praia. Os modelos pequenininhos, como os da Cia. Marítima, ficam para as mais velhas.

Lilian Pacce                                                                                                                                                                                                                                                                                               (colaboraram Jade Augusto Gola e Ailton Pimentel)

 

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