SPFW primavera-verão 2002/03: utilitarismo domina!

17.07.2002

Se depender das principais tendências mostradas até agora na SPFW para o próximo verão, a bolsa vai se tornar um acessório obsoleto, tamanha a profusão de bolsos em modelos utilitários, sejam calças, saias, casacos ou coletes. Já vimos o utilitário austero, o romântico e até o sexy, e outras interpretações ainda vão surgir nos desfiles que terminam sábado na Bienal, para convidados.

Reinaldo Lourenço prossegue em seu meticuloso trabalho de sobreposições de peças e volumes e no refinado uso de plaquinhas de metal e bordados. Abre o desfile com looks inspirados na moda utilitária (calças e coletes pretos de algodão resinado cheios de zíperes, fechos e grandes bolsos) e em Lee Miller, modelo e fotógrafa da Segunda Guerra. Mini-aventais com efeito de minissaias sobre calças e jardineiras (usadas com sutiã) formam um bloco mais “hardcore” que não deixa de ser feminino.

Para contrastar, um delicado vestido curto de algodão plissado, em degradê de verde-cana, com enorme fenda lateral. A tonalidade exclusiva prossegue em delicados tops franzidos pontuados por ilhoses e usados com calça sobreposta por minissaia. A coleção tem ainda calças de algodão com cavalo baixíssimo e comprimento na canela, algumas usadas com jaquetas com aplicações em metal.

Tops, saias e vestidos em amarelo canário, laranja, cinza e preto vêm com pétalas vazadas, arrematadas com bordados, extraídas das casas do bairro carioca de Santa Teresa, outra inspiração da coleção. O mix das aberturas com as aplicações de metal e cristais resultam em looks que são ao mesmo tempo sexy e modernos.

Nesta temporada, a Ellus de Nelson Alvarenga comemora 30 anos e brindou com banho de champanhe ao final do desfile, reunindo na passarela modelos, compradores, vips e imprensa. Em se tratando de moda no Brasil, 30 anos é grande coisa e a Ellus tem vivido ótimos momentos recentemente – o que inclui seu projeto 2nd Floor, um espaço de manifestação jovem no segundo andar da loja da rua Oscar Freire, que expõe e comercializa trabalhos de jovens estilistas, fotógrafos, artistas plásticos e designers de jóias, promovendo noites com DJs e lançamentos alternativos.

Na coleção feminina, a imagem do pirata ficou bem melhor do que na masculina, com modelos de atitude fetiche em looks que misturam túnicas transparentes com corsários utilitários e tiras de bolsos removíveis, para serem penduradas em todas as peças. Entre os devaneios fashion da passarela, fica a imagem de Marcelle Bittar abrindo o desfile com lenço preto no cabelo, shorts jeans e top cinza-envelhecido bordado em ouro.

A Patachou vem mais sexy no próximo verão. Decotes ousados se misturam ao hit da temporada: calças ou shorts utilitários. Entre tons lavados de cinza e bege, a seda colorida é ponto forte da coleção, assim como as calças curtas e sequinhas, trabalhadas com nervuras. As estampas com ar psicodélico são na verdade desenhos das crianças carentes da instituição Aviva, de Belo Horizonte.

Em sua estréia na SPFW, a marca V.ROM fez uma precisa síntese da linguagem do homem moderno internacional. A dupla Rogério Hideki e Vitor Santos mostra que domina uma estética cool e evita a armadilha da caricatura – já vista em outras tentativas de modernidade jovem na moda brasileira.

Eles usam uma boa variedade de tecidos tecnológicos e acertam nas proporções sempre secas, sem ficar justas demais. T-shirts e camisas podem ter comprimentos assimétricos ou encurtados, enquanto o jeans aparece na altura da canela, emprestando o look do streetwear. Destaque também para as bermudas de algodão com modelagem de roupa de montaria, para os terninhos esportivos em cetim de náilon e para as estampas de silicone coloridas, de efeito plastificado. Enfim, o homem brasileiro antenado com o mundo pode contar com uma roupa moderna, sem ter que estar inserido a gueto nenhum.

Esperta, a Iódice aposta nos astros e signos do zodíaco garantindo um apelo comercial para sua coleção. Os símbolos aparecem tanto em estampas quanto em pingentes aplicados na própria roupa ou em cordão no pescoço. As mulheres vêm com vestidos e túnicas em crepe e georgete, amarelo aceso ou azul suave, com proporções amplas e caimento fluido. Para os homens, um tempero dos anos 80 principalmente no jeans delavé folgado com enormes bolsos utilitários.

A Água de Coco foi a 1ª grife no segmento de moda praia a estrear nesta SPFW. Olhando pra suas raízes no Ceará, ela explora sem pretensão os horizontes locais, com estampas de jangadas ao som das Velas do Mucuripe. Tem também estampa de folha de carnaúba, como o engana-papai assimétrico mostrado por Camila Espinosa, e as listras rebordadas das cadeiras de praia. Na modelagem predominam os cortininhas. As amarrações laterais aparecem em calcinhas estreitas ou largas e os tops amarram entre os seios.

Lilian Pacce para O Estado de  S.Paulo (colaborou Guto Barra)

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