SPFW Outono-Inverno 2001

02.02.2001

Entre o assédio às celebridades e os indefectíveis atrasos, os desfiles do segundo dia da SPFW mostraram como as grifes brasileiras estão evoluindo para um patamar cada vez melhor. Teve Thiago Lacerda, Letícia Spiller, Marcelinho Carioca, Mariana Ximenez, Luiza Brunet, Bruna Lombardi, Adriane Galisteu. Mas nada disso roubou a cena principal, da moda na passarela. Os desfiles das coleções femininas para o outono-inverno 2001 terminam amanhã, no prédio da Bienal, e segunda acontecem os desfiles das coleções masculinas, encerrando o evento que é aberto apenas para convidados.

A estréia do mineiro Ronaldo Fraga na SPFW veio com a autenticidade que caracteriza a carreira do estilista, que está em sua 11ª coleção. Fraga é o nosso Hussein Chalayan: apresentações teatrais sustentam seu trabalho autoral mas falta um back-up financeiro para impulsionar sua marca. Como todo mineiro, ele sabe contar uma boa história. E a camisa branca perfurada por um tiro certeiro que faz o sangue escorrer é momento de pura emoção para o dramático desfecho de sua história.

Os modelos saem do muro das lamentações para a passarela do milagre dos pães. A cristã Rute usa vestidos pretos pela canela e seu amor, o judeu ortodoxo Salomão, vem com camisa cru franjada na barra (os fios tricotados pelos judeus nos porões do navios criaram o chamado “bordado de abrolhos“, ou seja, o bordado do sofrimento e das dificuldades) sob veste e calça preta curta. Camisas femininas de algodão, decotadas de gola redonda, vêm com nervuras ou estampa de pães e de tiros. O preto e o cru vão se encontrando em listras, dublagens, chevrons e estampas de nomes. “Para mim, o tecido é como a fala e a estampa é a escrita”, diz Fraga.

Com trilha de música ídiche mesclada à orquestra dos anos 30/40, a cartela vai acrescentando tons de marrom e verde. Esta contrição cromática parece o oposto de sua colorida coleção de verão. “É como se eu quisesse ir direto ao assunto”, diz. E assim foi a estréia de Fraga na SPFW.

Com styling de Carine Roitfeld, uma das mais influentes da moda internacional, a Zoomp soube impor a tão procurada “nova sensualidade”, marcando seu look com cabelos crespos e mais curtos. Joggings esportivos – com elástico no tornozelo e malha-punho nas jaquetas – se transformam em roupas de noite, em versão de cetim preto ou de látex pele. A alfaiataria é um ponto alto, seja no robe-mantô, na veste sem acabamento ou nos terninhos de couro. Dos novos jeans da coleção, como a versão anarruga, o mais incrível é o mesclado a fios de lurex com acabamento rústico, além do jeans com paetê e do paetê-jeans.

Os novos patchworks da estação têm na Zoomp um modelo exemplar, como o da saia curta construída em faixas de jeans, paetê, pelúcia e outros materiais. A renda marinho ou preta seduz com sua transparência e com os babados enviesados. A capa de chuva de renda emborrachada promete ser um “must have” da temporada.

A Patachou abriu sua coleção desvendando sua passarela que, em vez de ser plana como qualquer outra, formava duas ondas que ora escondiam ora revelavam seus modelos. Para Terezinha Santos, responsável pela grife, essas ondas refletem “os altos e baixos dos estados de espírito da alma feminina”. Mas enquanto o cenário sugeria essa vulnerabilidade, a coleção mostra uma mulher segura e vigorosa. Pisando firme em botas pretas de bico fino, ela vem com cintos largos marcando a cintura, muito à vontade com o que melhor sabe usar: os tricôs, acompanhados de leggings e pantalonas (peças-tendência).

O destaque no canelado é o mosaico de listras. A atitude sexy fica nos ombros caídos e nos tricôs pretos com decotes assimétricos formado por tiras. Segundo Terezinha, “o melhor dessas peças é que a mobilidade das tiras permite a cada um fazer seu próprio decote”. Grafismos geométricos vêm em preto, marinho e cru.

A Iódice buscou inspiração nas danças de salão e soube dar continuidade à linguagem da última coleção. O ponto alto são as listras (amarelo e pistache, preto e branco) que formam vários grafismos, mudando o efeito conforme a construção da roupa. No feminino, tudo é muito fluido e o vestido é peça-mestra. Bodies de alcinha são a base para vaporosos vestidos de chifom, numa leitura chic das roupas de balé moderno. Alguns looks vêm amparados pela praticidade das carteiras presas na cintura. Fora da dança, a mulher Iódice traz bons tailleurs de couro e jeans agarrado com faixas de lurex. Boas proporções e tecidos fazem a coleção masculina, onde predominam bege, marinho e preto.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Emanuela Carvalho)

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