McQueen, o ápice da Semana de Moda de Paris de primavera-verão 2003

O mundo da moda circula por Paris esta semana para acompanhar os lançamentos de prêt-a-porter para primavera-verão 2003. São mais de 120 desfiles entre estilistas de vanguarda e tradicionais maisons, tanto da França quanto do mundo inteiro, que precisam despertar a atenção (e o espaço) da mídia e o desejo (e o bolso) dos compradores, numa época de forte crise onde a instabilidade atormenta o consumidor e o mantém à distância das prateleiras.

O ciclo da moda para a próxima estação começou em Londres, passou por NY (onde desfilaram Rosa Chá e M. Officer) e Milão (que assistiu Icarius e Fause Haten), e termina oficialmente amanhã em Paris, onde Alexandre Herchcovitch se apresentou no fim de semana e Walter Rodrigues, hoje à noite, na Embaixada do Brasil. É a moda feita no Brasil começando a fazer volume no calendário internacional. Com exceção de Icarius, os brasileiros já haviam lançado suas coleções nas semanas de moda de SP e do Rio. Outra novidade aqui é a butique Daslu, que está com showroom no elegante hotel Plaza Athénée.

As modelos brasileiras continuam bem nas passarelas: Caroline Ribeiro, Ana Beatriz Barros, Raquel Zimmermann e Michelle Alves, entre outras. Mas quem surpreendeu foi Gisele Bündchen, que desfilou para Christian Dior, Balenciaga e Valentino. Só no desfile de Valentino Gisele entrou 7 vezes na passarela – um recorde para a top que costuma fazer apenas 3 entradas por show. Com o painel “Camouflage” de Andy Warhol ao fundo, Gisele abriu o desfile com uma jaqueta cáqui de inspiração militar – cada estilista reage a seu modo à eminência da guerra, mas a tendência militar vai continuar em alta, principalmente com as já clássicas calças tipo cargo. A tropa de choque de Valentino vem em tons de oliva, cinza e bege, que se misturam em looks leves, como o jogging de seda pura com casacos justinhos que ganham estrelas e insígnias douradas. É uma coleção mais cool do que se espera de Valentino, até nos vestidos de noite como o engana-mamãe marrom usado por Gisele em sua penúltima entrada ou os modelos com estampa inspirada no pintor De Koonin.

Mas há muitos momentos de tirar o fôlego nesta temporada, como os desfiles dos ingleses Alexander McQueen e John Galliano, do francês Nicolas Ghesquière para a Balenciaga (uma das maiores influências na moda hoje) e do lançamento da 1ª coleção de roupas do japonês Yohji Yamamoto para a Adidas, batizada Y-3.

Os destaques

A semana de prêt-à-porter de Paris reúne grandes criadores do mundo inteiro para lançar suas coleções primavera-verão 2003 e Alexander McQueen foi o ápice da temporada, deixando a platéia em êxtase às onze da noite, cantarolando a última música do desfile, “Fantasy“, do Earth Wind and Fire. Depois de uma fase profissional tensa, quando desenhava para a Givenchy do poderoso grupo LVMH (Louis Vuitton Moet Henneessy), McQueen se associou ao grupo rival, da Gucci, e entendeu completamente seu caminho. Equilibrando com precisão know-how técnico e criatividade, ele realiza a sua fantasia e a das mulheres num enredo amazônico de performance impecável.

Ao fundo da passarela quadrada ele projeta um vídeo que pontua três momentos da coleção. Em tons de marrom e cru, vem calças bufantes com corsets, camisões franzidos e a brasileira Carol Ribeiro num look vitoriano-sadomasô com calcinha, colete de couro e bota alta. O vídeo azul-piscina muda para um verde floresta por onde passam bodys tatuados e capas e pelerines – como a da também brasileira Marcele Bittar, de tule com pássaros. As penas começam a invadir os modelos em bordados e em estampas plumárias, em tropicais tons de azul, vermelho, amarelo e verde-maçã, que aparecem reunidos na volumosa saia de Michelle Alves. Nesta última fase, McQueen projeta a silhueta das modelos sobre um vídeo azul e rosa. Impressiona a força de cada look da coleção, que joga com volumes amplos harmonizando drapeados e alfaiataria.

No show de John Galliano exagero é um conceito que não tem limites, inclusive geográficos. Ao contrário de “Working 9 to 5”, tema do filme “Secretária do Futuro” escolhido por ele, Galliano deve ter trabalhado dia e noite para obter esse resultado brilhante que não se via há algum tempo em suas coleções. Batizada de “Bollywood”, referência à indústria de cinema da Índia, a coleção vem com magníficos saris bordados drapeados sobre a maioria dos looks: sejam camisas militares, jaquetões de couro ou saias de mil babados. As modelos completamente maquiadas de azul e verde com pinceladas de ouro (também em bijoux indianos) caminham sobre chinelos de plataforma vertiginosa, sacodem a cabeça e esparramam um pó colorido sobre boleros e trenchs hipergrandes, que respinga inclusive nos convidados da primeira fila. O próprio Galliano, um irreverente nato, comprimenta a platéia colorindo seu terno branco com o pó mágico.

A cor e um certo espírito lúdico são fortes na estação. Os bonecos infláveis gigantes que cercavam o Parc Citroën indicavam que também a tradicional Louis Vuitton quer seu momento de brincadeira ingênua (que, aliás, começou na temporada passada com as aplicações de contos de fada criadas pela ilustradora inglesa Julie Verhoeven). Os bonecos são do artista japonês Takashi Murakami, convidado pelo estilista Marc Jacobs para desenvolver estampas e interpretar o famoso monograma LV.

No backstage, o americano Jacobs disse estar encantado com a mulher francesa – uma imagem cinematográfica e feminina, que espalha lacinhos em tops e bolsas mas não dispensa trench coats com o monograma e explora esportes naúticos e seus materiais, como as jaquetas de neoprene estampado e os tops de borracha finíssima com flores aplicadas do mesmo material. Uma coleção feliz e contemporânea.

Esportes naúticos são de fato os preferidos da estação. Tem o aval até do darling do mundo da moda, o francês Nicolas Ghesquière que é responsável pela grife Balenciaga e pelas principais tendências que o mundo tem adotado nas últimas estações. Ghesquiere inventa seu próprio neoprene em jérsei numa coleção que se inspira nas roupas de mergulho e no surfe, como as estampas de camisas com papagaios que chegam à microvestidos de tule que servem de base para um intricado trabalho de chiffon drapeado. Preto, chumbro, cru, marinho e petróleo são os principais tons. E depois da bolsa de couro, seu modelo desestruturado de algodão ou veludo cotelê forrado de camurça deve ser com certeza o maior hit da próxima estação.

A comunhão entre esporte e moda nao poderia ser mais perfeita do que na parceria entre o estilista japonês Yohji Yamamoto e a marca de esportes alemã Adidas. Depois de criar uma bem-sucedida linha de tênis, Yohji lançou sua 1ª coleção de roupas com a Adidas sob o nome Y-3. O desfile foi realizado num estádio de atletismo numa passarela suspensa e rolante onde as famosas três listras brancas ganharam espaços além das laterais das calças e mangas, de preferência sobre preto, marinho e chumbo. É uma roupa esportiva que qualquer pessoa de bom gosto desejaria usar todos os dias.

A inglesa Vivienne Westwood chamou seu desfile de Street Theatre e criou uma passarela de asfalto para mostrar seus volumes drapeados com um leve ar punk (estética criada por ela nos anos 70 junto com seu então marido Malcolm McLaren para o Sex Pistols). Como num teatro, as roupas não podem ter cara de novas e Vivienne então usou muitas lavagens para deixá-las com cara de usadas, misturando cinzas, dourados e pequenos florais.

Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo

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