O movimento da moda brasileira

O movimento da engrenagem da moda brasileira fica mais forte a cada estação, com os lançamentos se concentrando dentro de uma única lógica: a do mercado. É muito bom ver jovens estilistas abrindo a temporada outono-inverno 2002, e é melhor ainda ver a moda chegando à televisão com uma cara verdadeira, de indústria forte e pólo criativo, sem caricaturas. Foi assim que começou domingo a nova temporada fashion. Seis jovens estilistas do Projeto Lab mostraram suas coleções com todo o elenco de “Desejos de Mulher“, a nova novela das sete, na primeira fila e algumas atrizes na passarela – afinal, o evento foi o local escolhido para a festa de lançamento da própria novela. Em seguida, durante 3 dias 13 estilistas mostraram suas coleções dentro da Semana de Moda – Casa de Criadores, que comemorou 5 anos nesta edição apresentada em um galpão ao lado da Ceagesp. E segunda-feira começa a São Paulo Fashion Week onde 25 grifes mostram seu inverno 2002 até sexta-feira que vem.

O jeans é vedete entre os jovens estilistas da Semana de Moda – talvez influenciados pela bem-sucedida parceria internacional entre a Levi’s e o criador japonês Junya Watanabe. A última coleção de Junya mostrou um jeans com aspecto vintage, anos 70, de lavagens sujas e envelhecidas, misturado ao espírito alta-costura, em vestidos impecáveis. E no fundo o que a gente mais precisa na vida é de um bom jeans – basta ver o sucesso da calça bordada da Gucci e do modelo desfiado da Dolce & Gabbana nas últimas estações, ambos reproduzidos no mundo todo, sem falar no eterno básico “five pockets”.

Se a moda hoje inspira esse tom vintage (uma boa roupa usada resgatada graças à sua qualidade), a estilista Giselle Nasser, de 24 anos, o interpreta em calças de sarja com cara de couro, em tons desbotados de cinza, verde e berinjela. Os tops podem ser levíssimos, de gaze de algodão com rendinhas aplicadas, ou pesados, como os casaquinhos de patchwork orgânico que misturam lã, cadarço, trança e sutache em fios trabalhados em curvas, em tons de salmão. “Pra mim, as texturas da coleção remetem à ninfas da floresta”, diz Giselle, que se inspirou na Irlanda e na cultura celta. O macramé de fios multicoloridos é outro artesanato valorizado por ela, em vestidos usados sobre calças com casaco jeans pelo joelho. O resultado é romântico e inocente, bem de acordo com a tendência folk-hippie que vai predominar na estação.

Outro jovem que se destacou foi Eduardo Inagaki, de 23 anos, que aplica o que ele define como “conceito unissex” em modelos de costas vazadas e gola marinheiro, usados ou não sobre tops, com saias de tricô pesado de lã, bem artesanais. A cartela de cores é leve e alegre, prometendo um inverno luminoso em pink, amarelo e azul-claro. O perfil em traço – uma estampa que ele trabalhou na temporada passada, quando estreou na Semana – vem agora com bordados e espelhinhos em vestidos-camisetões.

Lorenzo Merlino, que foi um dos estilistas votados pela Câmara da Moda para entrar na próxima São Paulo Fashion Week, aposta no veludo cotelê para criar uma mulher feminina em terninhos secos que podem ter a cintura da calça no mesmo tecido da camisa, misturando marrom, preto e verde. Os sapatos vintage são customizados com bordados de pedrarias. Chic e confortável a estola de couro que vem com bolso embutido.

A grande surpresa da Semana ficou com a A Mulher do Padre, a AMP, que deu um salto em seu processo criativo. Embora suas raízes college-clubber estejam presentes, o estilista Vinícius Campion explora novos caminhos. Ele transforma os franzidos dos sacos de lixo em bons modelos drapeados de couro sintético preto ou de algodão verde-chiclete. Até o vídeo que sempre acompanha seus desfiles, rodado por ele mesmo, vem menos trash procurando mostrar um personagem excluído “que fica de fora da platéia da Semana de Moda e de quase tudo”.

A V. Rom, da dupla Vitor Santos e Rogério Hideki, foi o destaque das coleções masculinas. Ela amplia sua linha e vai do moletom de poliamida ao costume de alfaiataria, com paletó mais curto – tendência no masculino. Pequenos recortes fazem a diferença das calças e o cetim de náilon azulão grita em jaquetas e calças. O visual é fashion sem ser victim, com um pé na realidade que pode ser a da vida noturna ou do homewear de pijama.

A Maria x Madalena, recém-criada por Guilherme Mata, de 39 anos, que foi um dos assistentes de Tufi Duek, estreou na Semana com um delicado trabalho de picotes vazados em forma de losangos, em tecidos molengos como malhas e jérseis, e boa combinação de cores: manteiga, marinho, vermelho-sangue e verde-claro.

No Projeto Lab, a atriz Silvia Pfeiffer participou da apresentação retrô-futurista de Tony Jr., Cris Couto desfilou para a Mg 5 e Mel Lisboa para Simone Nunes, que foi uma das revelações da temporada passada. Para o próximo inverno, Simone sobrepõe referências infantis, como o cavalo dos macacões de bebê, à violência do Holocausto, como as mangas que um dia foram casaco e que vêm amarradas na cintura de Mel Lisboa. Mas o melhor do Projeto Lab é a estilista Karlla Girotto, que trabalha com Reinaldo Lourenço e se destacou mesmo sem ter nenhum global em sua passarela. Sua silhueta se define a partir do pescoço, emoldurado em lãs torcidas, estolas e golas volumosas, de onde descem vestidos amplos em tons de cru, cinza, azul (claro ou royal) e beges. Drama puro a entrada final das 3 pernas de carneiro.

Lilian Pacce para o Estado de S.Paulo

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