McQueen monta circo de horror na Semana de Moda de Londres

26.02.2001

Londres – Hoje a Prada desfila sua coleção outono-inverno 2001/2002 e amanhã é a vez da Gucci, ambas em Milão. A expectativa é grande porque a temporada internacional de lançamentos não foi nada emocionante até agora. Tudo começou em NY, de onde realmente se espera uma interpretação comercial das tendências mais criativas. Semana passada foi a vez de Londres, que entrou no mapa da moda com a missão de alimentá-la com o máximo de criatividade e o mínimo de contestação e ousadia. Mas, salvo raríssimas exceções como Alexander McQueen e a nova Sophia Kokosalaki, a temporada da chamada London Fashion Week foi tão saborosa quanto um purê de batatas de hospital.

A geração criativa que os britânicos exportaram para o epicentro da moda de Paris (leia-se John Galliano para a Dior, Stella McCartney para a Chloé, McQueen para a Givenchy) parece ter traumatizado a nova geração. A fantasia underground deu lugar à preocupação comercial. Os novos estilistas não alimentam mais o sonho de virarem estrelas internacionais por sua originalidade. Buscam vestibilidade a qualquer custo e, verdade seja dita, a qualidade das roupas está muito boa. Mas cada coleção parece gritar: “Compre-me, quero ganhar dinheiro e viver bem!” Tanto que alguns desfiles foram explícitos, como o do polonês Arkadius, do americano Scott Henshall e de Russel Sage.

Arkadius chamou sua coleção de Prostitution, num protesto contra a necessidade da moda jovem e inglesa ser criativa. “Fiz muito sucesso na mídia com minhas 1ªs coleções mas não vendi uma peça”, disse ao Estado. “Agora quero ser comercial sim, mesmo que isso seja visto como uma prostituição do meu trabalho”. Arkadius apresentou ótimos suéteres de cashmere, com decote assimétrico, usados com risca de giz em recortes geométricos. Russel Sage, que redesenha roupas garimpadas em brechós, fez sucesso como o bolero recoberto por notas de dinheiro, questionando se uma roupa pode valer de fato 6 mil libras esterlinas (cerca de R$ 18 mil). Já o americano Scott Henshall, de 25 anos, que trabalha também como diretor criativo da tradicional Mulberry, estampou símbolos do dólar em camisetas, e brincou com a palavra “sale” (liquidação) em vermelho.

Talvez o trauma maior desta London Fashion Week tenha sido a ausência do cipriota Hussein Chalayan, um dos pilares da moda britânica. Nas últimas temporadas, Chalayan brindou os fashionistas com grandes “fashion moments” mas agora, falido, deixou todo mundo no vácuo.

Alexander McQueen, o maior e mais rebelde filho pródigo, destilou toda a maldade que uma criança é capaz em seu desfile intitulado Merry-Go-Round (Carrossel), provavelmente o último que realiza em Londres – McQueen acaba de vender 51% de sua marca para o grupo Gucci, forçando assim a ruptura de seu contrato com a Givenchy, do grupo arqui-rival LVMH (Louis Vuitton Moet Hennessy), que termina em outubro depois de 4 anos in house; portanto seu desfile deve ser transferido para Milão, enfraquecendo ainda mais a London Fashion Week. Além disso, McQueen ganhou pela 3ª vez o prêmio de estilista do ano, prêmio que lhe foi entregue pelo príncipe Charles na noite do Rover British Fashion Award.

O desfile parece ter exorcizado os pesadelos do chamado “enfant terrible” McQueen nesses últimos meses de negociações, misturando em seu carrossel personagens sinistros do imaginário infantil como palhaços de cara triste, ursinhos de pelúcia monstruosos e esqueletos dourados, muito mais para o mundo de Chucky do que para conto de fadas. Aos 31 anos, McQueen já deixou claro quais são suas assinaturas no mundo da moda: alfaiataria impecável (agora com forte apelo militar – com direito à caveirinha no quepe oficial -, ou numa releitura black-tie dos smokings femininos), calças de cintura mais do que baixa, vestidos ultrafemininos de jérsei de seda, cetim ou de couro recortado como renda e, agora, muita pena de pavão. Na 1ª fila, um espectador muito atento: Domenico de Sole, presidente do grupo Gucci, que já tem planos para abrir lojas McQueen nas principais capitais do mundo (hoje há apenas uma em Londres).

Julien McDonald, que apresenta um desfile em SP no mês de maio, e Clements Ribeiro, do casal anglo-brasileiro Suzanne Clements e Inácio Ribeiro, eram os nomes que concorriam com McQueen ao prêmio de melhor estilista do ano. Julien, de 28 anos, é uma espécie de novo Versace, afeito ao mundo de luxo e glamour, da mulher muito mas muito rica mesmo, com intrincados bordados, vestidos de cetim com recorte de maiô engana-papai e muito casaco de pele, com toque de El Matador. Clements Ribeiro sabe sintetizar as tendências que devem se firmar na próxima estação. Em seu desfile é possível ver microcoleções inspiradas basicamente nos anos 80 e no militarismo, ilustrando as várias fases de estilo do ícone David Bowie. Destaque para os sapatos e acessórios feitos em couro de porco com efeito de vidro.

Matthew Williamson aplicou sua leveza colorida e feminina ao mundo de “Alice no País das Maravilhas“, mas ao contrário de McQueen, o clima era light, longe da máxima “cortem-lhe a cabeça”. Flores de couro ou feitas com cartas de baralho salpicam roupas de crochê ou de renda, fios de pérola colorida criam listras sobre a blusa preta. Já o alemão Markus Lupfer mostra uma coleção mais racional em sala montada num campo de críquete – esporte que os ingleses adoram. Lupfer domina o tricô e a mistura de cores fortes, com muito amarelo e vermelho.

De toda esta nova geração, o desfile que vai ficar mesmo na memória é o de Sophia Kokosalaki. Grega, ela vai fundo em suas raízes e apresenta desde a temporada passada um trabalho primoroso de drapeado tornando contemporâneo o estilo das túnicas gregas da Antiguidade. Surpreende o jogo de dobraduras em sensuais vestidos de jérsei vinho, em faixas militares que se cruzam pelo corpo ou em preto gótico. Até a alfaiataria de Kokosalaki é fresh: o tailleur vem com bolso canguru e a pureza da camisa branca é quebrada por retalhos de tule. Kokosalaki é um nome pra ser seguido de perto.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo

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