Balanço da primavera-verão 2002/03 do SPFW: relax!

Enquanto o Rio dá a largada hoje à sua temporada de desfiles de primavera-verão 2002/2003, São Paulo faz o balanço dos lançamentos que terminaram sábado no prédio da Bienal. Vem aí uma silhueta mais fluida, de proporções mais relaxadas – seja nas calças oversized, quase sempre com muitos bolsos utilitários, seja em túnicas transparentes de georgete e seda, beneficiados sempre com as últimas novidades tecnológicas, usadas de preferência com cigarretes e corsários.

Dos 38 desfiles da temporada, a Cavalera brindou a platéia com o show mais divertido. Com seu humor debochado, a grife do deputado Turco Loco pôs os convidados da primeira fila sentados em frente a mesas alinhadas à passarela, recriando um júri como o dos programas de auditório que fizeram história na televisão brasileira, com nomes como Dercy Gonçalves e Pedro de Lara entre seus jurados.

A Cavalera, desenhada por Thaís Losso, mergulha na cultura black influenciada por uma viagem da estilista a NY, onde visitou pela 1ª vez o bairro Queens com o rapper Ice Blue, dos Racionais MC. Com cabelos rastafári ou black power e muitos acessórios dourados, os modelos trazem estampas de Diana Ross, Grace Jones e das mulatas de Sargentelli, além da brincadeira com o personagem Mussum em tons de verde, pink, laranja fluo e azul-royal. As meninas gostam de minissaias à Tina Turner ou calças oversized presas no tornozelo, que ficam bufantes como o jeans claro manchado de rosa. É roupa sem pretensão, exaltando mais uma característica da terra brasilis neste momento de ufanismo fashion: as raízes negras.

Lino Villaventura faz a coleção mais etérea, em vestidos vaporosos e sensuais delicadamente bordados, em cambraias e sedas. Inspirado na obra do artista austríaco Gustav Klimt (1862-1918) e sua musa Emilie Floge, Lino explora os vestidos soltos do início do século 20, quando acabou a ditadura do corselet, tornando-os abusados em decotes generosos e recortes reveladores.

Na Carlota Joaquina, os anos 80 continuam a ser referência forte. Só não ficou completamente repetitivo graças à vibrante apresentação ao vivo da banda punk-rock 7 Magníficos, do multimídia Tomas Spicolli, namorado de Carla Fincato, a estilista da marca. Jaquetas e camisetas se transformam em microvestidos retos, com recortes e patchworks nas cores da coleção: amarelo claro, laranja, azul, uva e cinzas. A estampa e os acessórios trazem sempre um avião que, ao contrário de que se poderia imaginar, não tem nada a ver com os atentados do 11/09 nos EUA há quase um ano. É que Carla teve seu showroom em Moema nos últimos meses e ficou traumatizada com o tráfego de aviões.

Coube ao estilista Marcelo Sommer, agora sócio do empresário João Paulo Diniz do grupo Pão de Açúcar, o último desfile da SPFW. Sua primeira fila se sentou em mesas redondas ao longo da passarela, como se fosse um baile no salão de piso quadriculado colorido, com luminárias idem e estampas ibidem. Com o tema Cama, Mesa e Banho, ele explora jacquards e piquês em calças secas afuniladas ou microvestidos-trompete, misturando estampas figurativas, como a vaquinha desfilada pela apresentadora Fernanda Lima.

Fause Haten, único estilista a desfilar fora da Bienal, rejuvenesce sua marca ao misturar o universo das garotas skatistas, incluindo a participação da new face Savana em manobras discretas, ao mundo da lingerie, em sutiãs de bojo dos anos 50 e tons de pele. Materiais nobres como o cetim vão parar em peças esportivas, como uma bermuda dourada tipo cargo, enquanto o georgete aparece misturado com jeans em saias de comprimento pelo joelho. Pequenos blazers, de cobra ou dourados, lembram a exuberância que marca o estilista.

Depois do hiato de uma temporada, a marca argentina Trosman Churba, única não-brasileira a participar do evento, volta com uma moda bem mais acertada. O tom minimalista aparece no bom trabalho de couro amassado branco em paletós e vestidos curtos (desfiados na barra), com faixas na cintura e blazers relax, e nas bolinhas fundidas sobre o tecido. Muito preto, cáqui e branco.

A 1ª vez

Saído da cena club paulistana, Caio Gobbi se destacou em eventos alternativos por seu trabalho com jeans. Nesta estréia na SPFW mostra um bom domínio do material na coleção inspirada na cantora Gwen Stefani, do grupo pop californiano No Doubt. Premiada por seu estilo, a contribuição de Stefani para a moda é como a de Madonna no início da carreira – a adoção de peças baratas do dia-a-dia, como regatas de telinha e tops de biquínis. O jeans nervurado aparece em blazer-colete com zíper frontal, jaquetas com manga desfiada, corselets bem moldados e calças de proporções folgadas. Uma das peças mais criativas é a parte de cima de uma jardineira que, destacada da parte debaixo, se transforma em colete-mochila. As garotas ganham também t-shirts pink ou laranja flúor com longas franjas que, no final, viram um poncho no look desfilado por Adriana Lima, nas cores do cabelo da musa Gwen Stefani.

A Vida Bula foi a única marca nova no segmento jeanswear. E em sua estréia a marca mineira demarca claramente seu território: uma moda comercial e mais teen do que a de seus grandes concorrentes. Uma rua com postes de madeira de luz, bem interiorano, é o cenário para jeans manchados, tops de crochê em tons degradês de jeans e camisetas com coqueiros e motivos religiosos, rebordadas com paetês dourados.

Também em sua primeira vez na SPFW, a Poko Pano segue a tendência de unir trabalhos manuais e alta tecnologia em seus biquínis e maiôs de estampas africanas, que têm a cantora Lauryn Hill como musa, na trilha e no look das modelos. A novidade são os tecidos com aplicação de Teflon, o mesmo das panelas. O resultado é que os biquínis parecem lisos quando estão secos, mas revelam estampas quando molhados. Ao diminuir o atrito com a água, o Teflon também é boa notícia para nadadores.

A apresentação masculina da Forum foi bem mais contida e discreta do que a festa carnavalesca da coleção feminina. O Carnaval fica restrito a uma ou outra estampa temática e, em uma referência de época, às camisas brancas de cambraia com paetês bicolores. O homem da marca é casual na maior parte do tempo e, como o viajante cosmopolita que ele se define, carrega sempre uma grande bolsa.

Reinaldo Lourenço traz um homem feminino, maquiado e com cabelo de chapinha, que disfarça sua identidade sob o boné bordado de cristais. A calça de gancho largo vem com paletó seco sobre a regata (básica ou bordada com plaquinhas de metal, paetês ou cristais). É uma proposta contemporânea e também ideal para o clima dos trópicos. No final, o estilista incorpora a irreverência de John Galliano e interpreta caras e bicos na boca de cena.

Rodrigo Fraga, outro estreante da SPFW, mostra a coleção masculina “Liberdade” exaltando as formas oversized. A mesma modelagem aparece também em um macacão tipo frentista de posto de gasolina e calças inspiradas tanto no skatewear quanto no sportswear, como as de náilon preto com tela sobre o amarelo.

Lilian Pacce para O Estado de S.Paulo (colaborou Guto Barra)

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