10 anos de SPFW: 1º dia de primavera-verão 2005/06 é festa

28.06.2005

Dia de aniversário é dia de festa. E Ricardo Almeida cumpriu o que prometeu. Pra comemorar os 10 anos de SPFW, ele criou um lounge com muito champanhe para receber seus modelos globais – de Marcello Antony com seu filho fofo à emocionante entrada de Raul Cortez, que está em pleno tratamento quimioterápico, passando pelo cantor-ator Seu Jorge, que abriu o desfile ao lado de Paulo Borges, diretor do SPFW.

Almeida estava preocupado com a reação da imprensa especializada de moda diante de tanto show e desta overdose de celebridade, páreo para a novela das oito. Mas ele pode relaxar. Para seus costumes (terno sem colete) de corte reto, de tecidos nobres, ele optou por uma cartela de tons claros (cinza principalmente), com camisas coloridas ou estampadas. O sapato era preto supersocial ou bege-claro, mais casual e quase estranho. Os rapazes ficavam ali conversando e bebendo, formando naturalmente grupinhos. Claro que os atores estavam mais à vontade do que os socialites e fotógrafos, mas a performance foi OK. Ao final, os pais trouxeram seus rebentos para desfilar a nova linha infantil do estilista, que insistiu para o filho Ricardinho, de 2 anos, colocar a mão no bolso da calça.

Já a comemoração de Alexandre Herchcovitch tem outro tom. A sala era toda branca com a platéia de frente para o parque Ibirapuera, onde acontecem os 51 desfiles desta temporada de primavera-verão 2005/2006 do SPFW. As modelos desfilavam entre peças de acrílico saídas do universo infantil. A top Isabeli Fontana abriu, com cabelo de trança de raiz que virou assunto do dia. O cabelo, que leva de duas a três horas para ficar pronto, leva quase o mesmo tempo para ser desfeito e muita top acabou estrilando com os puxões na hora de desmanchar o penteado e correr para o próximo desfile…

A coleção é mais um primor do estilista. Ele recupera os anos 70 em estampas e tecidos (com tecnologia de hoje). Combina com cabelo rasta e volumes dos anos 50 e 60, dando ênfase principalmente ao balonê e tulipa ao marcar a cintura alta com cintos largos, de couro trabalhado. Teoricamente, tudo seria over: a mistura de estampas, a sobreposição de tecidos, os babados, o exagero dos volumes. Mas este é o segredo e a chave do talento de Herchcovitch: transformar e surpreender. O resultado é romântico e leve, tanto nos vestidos com saiote de tule logo abaixo do busto, quanto nos terninhos de bermuda-bloomer. Os sapatos também merecem destaque: com plataforma de madeira e enfeite de flor de couro ou laço. Aliás, o laço promete marcar presença no verão 2006.

Na Patachou, a estilista Terezinha Santos aposta em elementos de brasilidade como algodão cru, crochê de grampo, cores claras. As tramas abertas ou a transparência do voal de algodão são compensadas com maiôs e biquínis usados por baixo, criando uma nova lingerie. Até a roupa de noite, como os longos 70’s, vêm em algodão, com flores de tecidos aplicadas. As cores claras casam bem com tons fechados de verde e vermelho e uma pitada de preto. As sandálias de corda com veludo de seda e solado de flores são de um luxo rústico contemporâneo. E esta moça usa até tiaras made in Brazil: de algodão cru com tucumã da Amazônia, e desfila sobre um autêntico linóleo.

Já na passarela de madeira da Osklen, o Brasil aparece sob um prisma mais carioca, o melhor da nobreza carioca. As estampas tropicais vêm nos vestidos de algodão ou leve tafetá e calças de cintura mais alta, com laço na cintura, um novo jodhpur. O macaquinho é ponto de partida: blusê ou sequinho, quase um maiô. Os acessórios de megapingentes arrasam na chiqueria, assim como as sandálias rasteiras, de dedo. A Osklen não faz moda praia mas faz moda de praia. Para o dia e para a noite, como prova o look da top Raquel Zimmermann: camisa branca de gazar com short preto em escalope, bolsa de paetê de metal e tênis. Simples e chic assim.

Com Rappin’ Hood ao vivo, a Ellus volta a reunir seu masculino e feminino num mesmo desfile em nome de seu produto principal: o jeans, que aqui ganha o aposto deluxe – na trilha dos jeans premium que conquistam o mundo. As calças apostam na modelagem bem justa, com duas variantes: o jeans escuro, puro, mais tradicional (que não entra no desfile), e o detonado com lavagens e processos manuais, que faz surgir os fios brancos. Tingimentos e lavagens pontuam a coleção também nos tie-dyes de vestidos mais soltos – mas sensuais – e camisetas podrinhas, como pedem esses tempos. “Ela é romântica sem ser bobinha – e sexy”, define Nelson Avarenga. A cor forte fica para os meninos, em total look limão, azulão, rosa, com bota idem. “É como se tivesse alguém gritando: ‘Ei, olha aqui as cores’”, brinca ele, que só usa preto, colocando o homem como objeto cenográfico de apoio à sensualidade feminina.

Num explícito falso bronzeado, Isabeli Fontana abriu o desfile da Cia Marítima, mas quem causou furor na passarela foi a modelo Daniela Sarahyba. Bem mais magra que o habitual, a carioca – que é estrela da campanha de verão da marca de moda praia – é a tradução da garota Cia Marítima: corpo sob medida para qualquer biquíni e uma paixão por acessórios como brincos candelabros, pulseiras e apliques. A trilha flertou com hits dos anos 70 e o casting resgatava modelos da 1ª edição do SPFW, em 1996, como Isabella Fiorentino, Gianne Albertoni , Sabrina Gasperin e as gêmeas Carolina e Mariana Bittencourt. O desfile, inspirado na Índia étnico-chique, propõe biquínis e saídas de praia em tie-dye, oncinha, florais grandes, arco-íris e cashmere, como o do maiô de Adriana Lima, bordado com paetê bronze sobre fundo azul noite. Na modelagem, o mais novo são os biquínis de tirinha, que parecem “pendurados”. “Foi um leitura da moda de rua, das mulheres que saem de calça jeans com calcinha aparente”, diz Mariana Adans, da equipe de estilo.

Se o momento é oportuno para se falar em agitação política, o estilista Mario Queiroz quer a palavra para seu verão 2006 e se inspira na efervescência política e cultural dos movimentos sociais de 68. Seus ativistas usam estampas lavadas, que parecem de lambe-lambe, com jeans rasgados, ou camisas de laise, para um tipo metrossexual. “Não costumo me preocupar com a idade, mas tenho que rejuvenescer a roupa que eu faço”, diz.

Lilian Pacce  (colaboraram Jade Augusto Gola e Ailton Pimentel)

Tags:                                                                                                                                                                                                          

Compartilhar