Vicente Perrotta primavera-verão 2017/18

25.11.2017 - 10:00 Desfiles comente!

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Vicente Perrotta é do tipo de estilista que defende causas na passarela, usa esse espaço pra questionar, causar reflexões. E o faz de maneira muito contundente – não houve quem saiu ileso dessa apresentação que rolou na Unibes como parte do line-up da Brasil Eco Fashion Week. Muita gente pareceu incomodada. O estilista acha que, pra discutir consumo, não basta questionar práticas da indústria – ele acredita que o estereótipo de gênero também está atrelado e cava fundo: “O consumo no geral é sexista. O de moda, especificamente, é opressor, a pessoa tem que ser magra, branca e cis. Não existe roupa pra outro corpo que não seja esse. E pra mim, gênero não existe, quero tirar essa opressão patriarcal da roupa. Como quando não acinturo; quando não faço numeração e sim procuro fazer uma peça que sirva pra vários tamanhos…”

Mas o que pareceu incomodar a plateia que não está acostumada com o trabalho de Vicente é que ele focou na figura dx travesti pra vestir esse seu upcycling que ressignifica gênero e sensualidade, exibe o corpo também como uma informação de moda (despir pode fazer parte do estilo tanto quanto o vestir), provoca ao burlar o “cerimonial” de um desfile certinho com modelos entrando e saindo em sequência, exibe figuras cheias de personalidade. Teatro – não no sentido do artifício mas na dramaticidade, na intenção narrativa.

O Brasil é o país que mais mata travestis no mundo. E também é o que mais consome vídeos pornôs com travestis.

Um desfile não precisa ser só um desfile. Uma camisa não precisa ser uma camisa, um paletó pode ser outra coisa. E se a manga, no lugar de cobrir um braço, se pendurar lá embaixo? Uma maquiagem nem sempre é aquela maquiagem de desfile, com batom só na boca, com tudo “no lugar”. Qual é esse lugar, quando que se convencionou que o batom ficava só na boca? O que é uma roupa pra você pode não ser uma roupa pra pessoa ao seu lado. Muita gente tem vontade de mudança, mas é reformista: Vicente está mais pra revolução armada de contexto, coragem e alteridade. 

E finalmente um homem não é um homem, uma mulher não é uma mulher. A complexidade das matizes do cinza: quem só enxerga o preto e o branco se limita, se contenta. E a mediocridade do binário (essa e toda mediocridade) tem um gosto horroroso. Esse desfile fala sobre muita coisa, e também é sobre romper convenções. E isso é lindo. (Jorge Wakabara)

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