Um banquete de Ronaldo Fraga pra celebrar o que nos une

24.10.2018 - 10:39 Desfiles SPFW um comentário

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Aguce os ouvidos e você vai ouvir por aí, na rua, no supermercado, no Maní. “O estrago já está feito”, “eles saíram da toca”, “o problema maior talvez sejam os seguidores dele, e não ele”. Ou não aguce: existe relato em alto e bom som de gente agredida verbal ou fisicamente em nome dele; já existe morte de travesti em nome dele. Não é fake news. E nem entramos na seara de esquerda ou direita: estamos falando de direitos humanos, e do mais básico, “todos somos iguais”. 

Ronaldo Fraga diz que quase não fez o desfile dessa vez – está ocupado com a recém-contratação pra direção criativa do Minas Trend. Mas sentiu necessidade de se posicionar diante do bolsonarismo. Pra isso, ele lembrou de um dia de março de 2017, quando estava em Tel Aviv num café e pediu pra traduzirem algo que estava escrito em hebraico no cardápio. Ali dizia: “Se nesta mesa se sentar um árabe e um judeu, damos 50% de desconto”.

É na mesa que nós, humanidade, celebramos, confraternizamos e dividimos. Vários pratos, tanto da cultura árabe quanto da judaica, existem assim, pra dividir – inclusive o homus, que ambas as partes disputam a autoria saudavelmente. Na apresentação de Ronaldo que rolou no SPFW, repleta de peças em jeans (material ultrademocrático), existe uma mesa posta enorme com comidas de ambas as culturas, que ao fim foi repartida por todos, inclusive pela plateia. E nos looks, a mistura de símbolos também está presente – a estrela de Davi, a bolsa-peixe (parceria com a ), o chapéu ortodoxo, o lenço palestino. Em um dos looks, lê-se estampados: Oliveira, Pereira, Moreira. Nomes de cristão novo, ex-judeus batizados no catolicismo fugindo do preconceito. 

No começo, pra mostrar que aqui é considerada justa toda a forma de amor, rola um beijo na boca entre dois homens, outro beijo entre um senhor e uma senhora, e mais um beijo entre duas mulheres. Tel Aviv é uma das cidades mais gay-friendly do mundo, sabia? Depois, lá pelo meio, entra uma criança correndo. Novas famílias. Mais divisão do pão, menos divisão entre irmãos. Muita gente chorou ao assistir ao desfile – é o pavor do ultraconservadorismo que bate, é o choro de felicidade por ainda encontrar cenas que condizem com o que você sente, como um milagre ao meio do mar fétido que ronda. E essa união entre os nossos, que dizem não pra homofobia, transfobia, racismo e qualquer forma de discriminação – essa não pode e não vai se abalar. Bravo, Ronaldo. Não ao retrocesso. (Jorge Wakabara)

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