Rober Dognani outono-inverno 2016

15.10.2015

É difícil encontrar um estilista corajoso o bastante pra fazer de uma crise econômica o seu tema. 1º porque crise, tristeza e baixo astral não vendem (ao menos em teoria), e 2º porque a moda gosta de riqueza e não de falta de dinheiro (salvo inspirações em punks, grunges etc.). Então já é incrível que Rober Dognani tenha decidido falar da crise em sua passarela de outono-inverno 2016, mas ele ainda se propôs outros desafios: não usou sua técnica de látex, que é ótima mas vinha se transformando em uma zona de conforto que começava a cair em acomodação; e também não se voltou pro futurismo que é recorrente nas suas criações. O que sobrou do seu universo criativo, então, é o oversized de pegada “desabada” que ele já cometeu outras vezes, à neogrunge glamouroso, que dessa vez ganha um charme a mais por causa da história por trás da coleção.

E qual é a história? Rober imaginou uma mulher que era milionária e perde tudo com a crise. Só que, num viés à “Grey Gardens” (mas bem menos camp), ela começa a usar sua criatividade com o que “sobrou” – afinal, meu bem, dinheiro nenhum compra estilo! O robe (ou ela chamaria de peignoir?) matelassado vira casaco, a pele (que na verdade é pelúcia) é reconstruída em novas peças, o cobertor xadrez (na verdade uma lã com um toque incrível) é o novo casaco de pele, e o smoking do marido é todo picotado pra virar outra coisa. O efeito fica chic porque na verdade os tecidos e os forros são todos finos, dão aquele caimento elegante e deixam as peças com outra cara, mesmo que cortadas a fio. E os paetizados ajudam no glam, claro.

O lado “revoltada excêntrica do Morumbi” é reforçado com os acessórios de Giuliano Menegazzolembra que a gente contou há um tempo que ele estava fazendo itens em couro? As cintas e selas sadomasô são dele, assim como os colares de couro com aqueles símbolos do carro que vem no capô – a estrela da Mercedes Benz e o felino pulando da Jaguar, tipo “tive que vender o carro mas pelo menos arranquei uma lembrancinha…”. O resultado é abusado e divertido – “falida sim, mas cidra barata não beberei nunca”! (Jorge Wakabara)

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