Lab outubro de 2016

25.10.2016 - 09:43 Desfiles SPFW 2 comentários

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Muito se falou e vai se falar sobre a Lab, esse desdobramento do Laboratório Fantasma pelas mãos de Evandro Fióti e Emicida com a ajuda de João Pimenta que foi parar no SPFW. Os looks, streetwear que mistura o Japão e a África com um sabor bem brasileiro, já estão disponíveis pra compra online. Releitura de estampas como a samacaca angolana que Emicida adora, de quimonos de samurai que vão parar nas mulheres, de clássicos do street no geral como o moletom com capuz usado com saia plissada longa (em Seu Jorge na passarela) – tudo é bacana, pra ser usado já. O desfile emocionou por alguns (vários) fatores: Emicida mandando seus versos ao vivo durante todo o desfile e depois (pra quem quiser, tem o vídeo do ao vivo no nosso Facebook pra assistir-ouvir), representatividade na passarela (negras e negros mais modelos plus size, inclusive a Bia Gremiom, manequim 60, que já deixou de fazer campanhas plus size porque a marca só ia até o 54 e foi uma das aplaudidíssimas), representatividade no backstage (não existe uma marca no SPFW além da Lab que seja de empresários negros).

Mas chega de outras pessoas falarem sobre isso. Conversamos com o Emicida no backstage, antes da apresentação começar, e ele mandou um texto tão bonito que fica difícil deixá-lo de fora. A sensação que fica, depois de ter assistido ao desfile: falta inclusão na moda no geral, falta em nós o sentimento de coletivo. É por isso que a roupa dessa passarela tem tanta energia. Com a palavra, o próprio:

“Viajando em uma parada de humanidade: como você cria uma atmosfera que convida as pessoas a fazerem parte daquilo? Estamos num momento em que falamos de combater o machismo, o racismo, a homofobia, a transfobia e vários outros temas; mas essa luta é pra gente ter uma atmosfera em que todas as pessoas se sintam incluídas, parte disso, fortes pra ter voz.

Tem um cara chamado Mario Lucio que foi ministro da cultura de Cabo Verde. Ele falou uma parada muito incrível chamada lugar de memória, que é uma coisa que você constrói no coletivo. Num país misto, plural como o Brasil, estamos trazendo dois elementos fortes, muito conhecidos, que são a imigração japonesa e a africana. Essa última aconteceu de um jeito torto por causa da escravidão. Isso se mistura: o Brasil é o país que tem mais japoneses fora do Japão e mais africanos fora da África. Onde essas coisas podem se encontrar e onde essa homenagem pode acontecer? No Brasil. O personagem central da nossa coleção, que é o Yasuke, é um cara que foi sequestrado na África durante a escravidão e apareceu no Japão levado por um jesuíta em 1579 – essa história é muito velha, e não é uma lenda, é um fato. Você tem registro na Itália, ele serviu num clã de samurais.

E eu passei a minha adolescência lendo mangá. Lia tanto mangá que comecei a ficar puto porque não sabia falar japonês. Comecei a entrar numas, pesquisar umas palavras, com 16 anos. Chegou uma fase que eu tava lendo tanto que comecei a entender um monte de coisa, só que depois, por não praticar, eu fui esquecendo. Mas sempre fui muito próximo, “Akira”, Studio Ghibli, sou viciado em anime. De uma certa maneira, hoje estou agradecendo a minha ancestralidade africana e dizendo que tenho muito orgulho, e de certa maneira estou dizendo pros japoneses que sem eles também não estaria aqui hoje, que foi foda o que eles fizeram por mim sem saber.

Mas o que o Mario Lucio diz, de lugar de memória, é essa coisa que eu e você temos em comum. Um elemento que você reconhece, eu reconheço e aquilo conversa com nós dois sobre o nosso passado. A gente vive um tempo de individualidade, todo mundo tá preso no celular e reflete muito pouco sobre o que aconteceu antes. Todo mundo quer saber o que vai acontecer amanhã, mas a gente constrói essa memória do coletivo aqui.”

Que essa construção prossiga. (Jorge Wakabara)

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