Isaac Silva homenageia a primeira travesti negra do Brasil

27.07.2018 - 13:59 Desfiles comente!

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Isaac Silva segue ascendendo na sua moda engajada, usando seus desfiles da Casa de Criadores e coleções como plataforma pra discussões importantes. Agora ele pensa na mulher trans e na visibilidade dela no Brasil via Xica Manicongo, que é a primeira travesti registrada na história brasileira (em 1591) e, portanto, considerada um marco pós-invasão portuguesa, símbolo de luta e resistência. Negra e escrava, Xica morreu assassinada no século 16, descrita nos registros com “vestes de feiticeira africana”. Assassinada como Dandara, Matheusa, Marielle e tantas outras. Essas são histórias que precisam ser contadas e lembradas – é isso que Isaac faz.

A cantora Urias abre o desfile cantando “Geni e o Zepelim“, música de Chico Buarque a trilha de “Ópera do Malandro“. A letra é contundente (quem não conhece precisa ter essa referência agora, procura no Spotify!), e a versão de Urias é ótima. Depois, entram as modelos: absolutamente todas são mulheres trans. O que varia é a idade, o estilo, o corpo, a raça. É como uma representação da diversidade dentro da identidade da transexual, ressaltando a beleza e a força delas. São histórias que precisam ser contadas e lembradas (repetir isso nunca é demais). Neon Cunha, a ativista que também participou do processo de criação do desfile de Weider Silveiro nessa mesma temporada, é uma dessas mulheres. E Neon ressalta um fato interessante: se a mulher trans quisesse comprar um vestido chic, desses que o estilista coloca nome, ela compraria um vestido batizado com o nome de uma mulher cis. Esses novos looks de Isaac, pelo contrário, são batizados com nomes de mulheres trans.

Os materiais principais são o samakaka angolano estampadão em versão P&B, sarjas e tecidos com padrões formados por folhagens de árvores afrobrasileiras, referência a uma história que Isaac conta sobre o conceito de Ubuntu. Ele diz que um homem branco estava visitando um povo africano e decidiu brincar com as crianças: colocou vários doces debaixo de uma árvore, foi pro outro lado com as crianças e disse “quem correr lá primeiro e trouxer os doces de volta vai ficar com eles”. As crianças não hesitaram: foram todas juntas, pegaram os doces juntas e voltaram juntas. Ele estranhou e veio a explicação: “Esse conceito de competição aqui é esquisito, não existe. Isso que elas fizeram é ubuntu.”

Somos juntxs. Isso que Isaac faz pelas minorias em seus desfiles é ubuntu. (Jorge Wakabara)

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