A incrível construção do novo ser-humano na Gucci

22.02.2018

RuPaul diz: “Nascemos nus e o resto é drag”. E será que mais pra frente os estudiosos vão chegar à conclusão que não somos homo sapiens e sim um desenvolvimento dessa espécie, já que temos a capacidade de nos modificar externa e internamente e exercemos essa capacidade de maneira cada vez mais plena? O desfile de outono-inverno 2018/19 da Gucci é sobre isso, a construção (e eterna reconstrução) das nossas identidades contemporâneas em tempos hiperconectados, hipertecnológicos e de contextualidade fragmentada e mixagem, sob a ótica de temas tão importantes como gênero, raça e religião

Ao mesmo tempo, esse tema não é apresentado de maneira pesada como a descrição pode levá-lo a crer: a colagem é tão detalhista e intensa, às vezes contraditória e na maior parte do tempo extremamente excêntrica que é dela que surge o novo, da mistura de elementos que a gente já conhece. A edição de imagem é bem chamativa, com direito a dragão bebê, cobra coral, camaleão e até cabeças sendo carregadas tal qual acessórios. Em outro modelo aparece um olho no dorso da mão! O estilista Alessandro Michele apareceu na direção criativa da Gucci em 2015 exaltando o agênero, mas ele transcende agora na pergunta “o que queremos ser?”. Aliens? O mais diferente? Jovens babushkas de pernas de fora? Imperatrizes chinesas ocidentais ou indianas de turbante nascidas… na China? Melindrosas que substituíram o salto por um tênis? Oitentistas que só tem amigos setentistas? Reis da meia balaclava, tipo “hoje não quero mostrar meu rosto”? 

Você acha que o dragão bebê da Gucci veio de “Game of Thrones”? Saiba mais!

A Gucci também provoca ao estimular a logomania… de outros. Aqui, da Paramount ao New York Yankees, o logo é tratado como ornamento, estampa, muito mais que exaltação de uma empresa. O que significa usar esse símbolo? E mais: o que não significa usá-lo? O cenário, meio sala de cirurgia à “Black Mirrorretrô, é tão instigante que o storytelling parece sugerir que basta uma intervenção e pronto: transgênero, transcultural, transtemporal até transracial, e também transitório; dia após dia troca-se de pele, de roupa e de persona de maneira intensa e aprofundada. Se tantas coisas são construções sociais… por que não viver em constante reforma, sempre?

E agora, diante disso tudo, uma pergunta pra você pensar enquanto olha pra essa galeria de fotos: o que é estilo pessoal hoje?

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