Guto Carvalhoneto junho 2016

16.06.2016

Um ritmo diferente em apresentação longa cheia de pausas e climas, um compromisso com a moda autoral em grau que raramente se vê em temporadas de moda nacionais. Guto Carvalhoneto, que é do sertão da Bahia e tem 38 anos, estreia na passarela de um grande evento tacando o pé na porta com convicção, mostrando que não está interessado em concessões. Ao mesmo tempo, faz isso porque sabe a qualidade inegável de seu produto final, a roupa: o corte certo, o algodão incrível (apoio da Somelos Tecidos), a renda irlandesa que vem do interior do Sergipe e forma um esqueleto. A camisa é o elemento chave, às vezes desconstruída pra efeitos de imagem de desfile; mas também merecem menção honrosa as belas calças de alfaiataria, as skinny com vão no joelho e a modelagem anatômica dos vestidos com recortes de faixas sinuosas verticais.

Cult, Guto ainda traz cinema à Glauber Rocha em curta cheio de imagens fortes estrelado pela artista Carô Rennó e feito por ele mesmo, projetado em camisas gigantes na boca de cena. Dá textura com pinceladas de acrilex, mostra a estrutura da peça construindo-a do avesso com pences invertidas e tudo o mais, traz personagens teatrais pra passarela como uma anciã sertaneja corcunda de saia cheia de sinos aplicados, sugere um cortejo fúnebre, substitui o buquê da noiva por um buchinho seco da caatinga e o branco do vestido por um preto enlutado. O resultado é mezzo Ronaldo Fraga, mezzo Yohji Yamamoto (ídolo confesso do estilista), e por mais que tenha mil referências é autêntico. Que venham mais! (Jorge Wakabara)

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