Fause Haten abril de 2016

25.04.2016

O próprio Fause Haten fala ao microfone, na apresentação da sua coleção batizada “Desfile Marlene”, que aquilo contraditoriamente não era um desfile, nem era moda, nem era performance, nem ao menos obra. Dá pra entender? Nessa negação de tudo, provavelmente o objetivo é que ela seja apreciada enquanto “obra aberta” (com o perdão do uso da palavra “obra”, portanto). Mas quando se é contra muita coisa e não se diz exatamente ao que se é a favor, a gente sabe muito bem nesse período complexo pelo qual o país passa, o discurso acaba frágil, quebradiço. Não que seja necessário explicar algo quando você é um artista, e é esse o caminho que Fause toma, se autodeclamando mais artista que estilista. Só que ao explicar que surge a armadilha.

E a apresentação é cheia de autoexplicações. Uma ficção é armada, mesmo que sem uma narrativa muito linear: uma personagem que é caracterizada por marionetes do tamanho de uma mulher de verdade tem cara à Marlene Dietrich, canta “La Vie en Rose” como Dietrich, usa uma peruca que lembra Dietrich e… dá-lhe narração em off chamar a cantora de Marlene, bem pouco sutil. Melhor mesmo ver as roupas – e se Fause também declara que está avesso às tendências, mal sabe ele que o Zeitgeist predomina e o pega de jeito: estão aqui o rosa, as franjas, o metalizado, a renda, o esportivo (especialmente na parte masculina), o floral. Algumas peças são bem representativas do que Fause sabe fazer melhor: moda festa com personalidade. Ou mesmo moda, no geral, com personalidade. Em tempos de mesmice, é bom ver o longo cheio de brilho com franjinhas à corista do começo, ou a blusa prata futurista com máscara e asas estampados! (Jorge Wakabara)

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