Fabia Bercsek primavera-verão 2016/17

16.04.2016

Aquela roupa ordinária da banquinha do mercado popular no centro. O que a gente, o mundinho fashionista, renega e subestima. É pra esse universo que Fabia Bercsek, agora fora da Cravo & Canela, olha pra criar a sua primavera-verão 2016/17: “É essa vida que eu vivo, pé no chão, lavando louça, andando muito na rua…” Portanto não é de glamour que estamos falando nessa passarela, ou pelo menos não é do glamour óbvio que as pessoas conectam com a moda de desfile, da renda francesa, do bordado caro, do champanhe. No mundo de Fabia, existe também a possibilidade de imagem de moda forte e surpreendente entre mesas de plástico e garrafas de cerveja – por que não?

Então aparecem elementos aqui que são muito confortáveis ao mundo da José Paulino, mas que passam pelas mãos criativas da estilista e ganham outra vida e significação. Ou talvez seja apenas uma provocação, talvez Fabia que saiba o valor dessas coisas desde sempre e foi só ela lançar luz neles que a gente, na maior ingenuidade, já os vê com outros olhos. Será? O bordadinho de linha com uma florzinha boba na camiseta; o tafetazinho que vira uma japona; a estampa-lenço que tanto se popularizou; o transfer de bolinhas metalizadas; a calça justa “de cotton”; a blusinha de um ombro só. Até o aerobrush do artesanato do camelô entra. Quem fez, Fabia? “Um artista que eu encontrei, o Juarez”. Onde você encontrou? “Na rua. No centro.” Ela também chega na loja do Brás, se interessa por um tecido e pergunta: “Quanto tem?” Só 3 metros. Tudo bem, é ele mesmo que vai aparecer em um vestido, com a ponta toda rasgada do jeito que ela veio, um ar selvagem-grunge, descompostura fashion da melhor estirpe em paetizado salmão. Isso mesmo, aquele famigerado rosa salmão. Quem tem talento faz tudo virar ouro. Fora outro subtexto: esse ambiente da roupa subestimada é muito brasileiro. É como se no desfile de Fabia um Brasil finalmente não renegasse outro Brasil. (Jorge Wakabara)

Tags:            

Compartilhar