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Jóias raras

24.09.1997 - 14:40 Moda Acessórios comente!

Um dos aspectos mais fortes das próximas estações não está na cor nem no comprimento da roupa, mas sim no que a acompanha. Está declarado o fim do minimalismo radical. É verdade que muitas mulheres nunca deixaram de usar seus anéis, brincos, colares e pulseiras. No entanto, eles haviam desaparecido das publicidades e editoriais de moda. O comércio, até então obrigado a se abastecer com itens considerados demodê, já comemora a felicidade de sua cliente, que continua a usar tudo o que usava antes só que com mais confiança no próprio visual. É a chegada do adorno como proposta fashion: do cinto à bijuteria, da tatuagem fetiche à pintura primitiva, mas acima de tudo das jóias que provocam admiração não só pelo valor de seus metais e pedras preciosas como também pelo primor da técnica e do design utilizados.

As passarelas daqui e de lá não param de emitir sinais. Jean-Paul Gaultier chegou a ser patrocinado pela tradicional Van Cleef & Arpels em seu desfile Couture, julho em Paris, onde mostrou peças deslumbrantes de rubis e brilhantes posicionando-as insolitamente. Já a maison Dior trouxe para a sociedade de luxo a tradição da tribo masai em peças de miçanga e largas coleiras de metal que espicham o pescoço das mulheres girafa. Aqui, Reinaldo Lourenço criou colares que formavam verdadeiros cardumes metalizados, Glória Coelho usou braceletes que chegavam a ter o comprimento do braço, Jeziel Moraes colocou anéis de brilhante afivelando vestidos – só para citar alguns.

No mercado interno, a tendência da jóia coincide com a estabilização da moeda. Com o Plano Real, o vestuário viu seus preços extrapolarem até os de seus similares estrangeiros, enquanto o preço da jóia se estabilizou, uma vez que o ouro é cotado em dólar, dando a súbita sensação de que a jóia ficou barata. Não é verdade. Seu valor é o mesmo, mas um par de brincos hoje vale tanto quanto um par de sapatos. E ainda apresenta a vantagem de durar muito (ou para sempre) e resistir à instabilidade da balança: mais gorda ou mais magra, ele serve sempre e impressiona muito.

Simultaneamente, a violência nas ruas das grandes cidades breca o impulso do consumo – ou ao menos desencadeia uma certa reflexão na hora da compra que acaba subvertendo tudo: compra-se jóia com cara de bijoux e bijoux com cara de jóia. “É difícil um ladrão distinguir um do outro”, afirma Roberto Stern, da H. Stern, cuja rede de lojas ocupa 80 pontos no Brasil e quase cem no exterior e que acaba de lançar a coleção assinada pela consultora de moda Costanza Pascolato.

De maneira geral, entretanto, o mercado do luxo está determinado a dar a jóia um novo valor. O design tradicional dos grandes nomes (leia texto abaixo) continua a ser objeto de desejo e a alta-joalheria avança os domínios da realeza para conquistar a cultura (caso dos 150 anos da Cartier no último Festival de Cannes) e a moda (Gaultier com Van Cleef e a Chanel com sua própria marca). Na loja Cartier, recentemente aberta em São Paulo, uma das peças mais cotadas é o anel Mimi, que pode ser todo cravado de brilhantes (R$ 8,3 mil), safiras, esmeraldas ou rubis, compondo um com outro. Já a tradicional aliança Cartier (de três elos de ouro entrelaçados que representam amor, amizade e felicidade), largamente copiada mundo afora, custa R$ 520.

O designer carioca Antonio Bernardo, um dos grandes nomes da joalheria contemporânea, também viveu seu momento de glória e cópia. Para reverter a imagem de que suas peças eram inacessíveis, lançou no final de 93 a pulseira Wish, aquela de couro com plaquinhas de ouro, cada uma representando um desejo (são mais de 40 opções disponíveis). Não demorou muito e a Wish virou mercadoria das prateleiras de lojas populares, camelôs e até outras joalherias.

As jóias de Antonio Bernardo, 50 anos, guardam sempre uma surpresa: um movimento lúdico, uma articulação ergonômica e até mensagens que você gostaria de dizer mas nem sempre consegue. É o caso das alianças que trazem “eu te amo” em bolinhas de braile ou em pontos do código Morse. “A jóia deve ser mais do que exibição estética e demonstração de poder. Procuro dar a ela um significado a mais, atribuindo-lhe valor agregado. Aquelas jóias de baú que aparecem em casamentos não combinam com a atitude moderna”, afirma Bernardo, que adora trabalhar o brilhante. “Ele é vivo, está sempre faiscando.”

Da mesma linhagem de Bernardo, a brasiliana Carla Amorim, 32 anos, também desenvolve um trabalho artesanal moderno. A realidade de Brasília e do serrado convivem com o sonho do mar, em peças batizadas de anel Congresso, brinco Espuma do Mar, colar Gravetos, gargantilha Terra Seca, que estarão à venda em São Paulo até o final do ano na loja que inaugura nos Jardins. “Além do peso do ouro, da pureza da pedra e do valor do design, a jóia tem que emocionar”, acredita.

Para Cecília Rodrigues, 44 anos, que expõe jóias em forma de flor até amanhã em seu ateliê, jóia é como roupa: “Tem que estar na medida, com tudo no lugar certo”. As peças de Rodrigues são bastante autorais e geralmente únicas já que ela gosta de misturar coisas antigas (“têm mais caráter”). O ouro só existe para dar suporte à pedra, musa absoluta de suas peças. “Minha maior cliente usa as jóias para cuidar do jardim simplesmente porque ela admira o trabalho. Não é como a maioria que precisa de um brinco para se enfeitar”, diz Rodrigues.

Francesa radicada no Rio, Valerie Le Heutre, 34 anos, adora ametistas, como Rodrigues. Mas ambas constataram que ametista não vende aqui. “Brasileiro não gosta”, diz Le Heutre. Criadora dos pequenos pingentes de ouro inspirados em Monet, que estiveram à venda no Masp durante a mostra do pintor impressionista, ela pretende transpor formas da natureza para suas pedras, sejam flores, galhos ou corais. A paulistana Tânia Miura, 32 anos, trocou recentemente os bijoux de sua marca Santa Z pelas jóias. Mais zen, ela procura resgatar o caminho da beleza, abandonado segundo ela pela arte contemporânea. Delicada, mistura pena de cocar ianomami com correntinha de ouro e gosta de trabalhar contas e tramas.

Há muitos outros nomes importantes com lugar cativo no cofre de seus clientes, como Mabel Suplicy e Mauricio Monteiro – este o queridinho das que apreciam modelos poderosos e não podem deixar de ter uma pérola South Sea. Mas a boa nova neste mercado é o negócio de Izabel Esteves que comercializa reproduções impecáveis dos grandes nomes da joalheria por valores que chegam a até 1/5 do preço original.

Lilian Pacce para O Estado de S. Paulo

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