África com Okan: os tecidos do Mali em uma exposição

Ligia Meneghel Chagas
Tradições milenares, muitas ainda presentes em Mali, fazem parte da exposiçãoPróxima Ver mais fotos
Tradições milenares, muitas ainda presentes em Mali, fazem parte da exposição

Entre as atrações do Museu Nacional do Mali está a mostra “Textiles du Mali“, que reúne tecidos e vestimentas coletadas desde 1987 pra mostrar tradições ainda vivas hoje – mas que correm risco de desaparecer. Apesar do Mali ser o segundo maior produtor do continente, atrás apenas do Egito, o algodão quase não é mais usado no circuito artesanal tradicional – os fios industriais substituíram o algodão filado à mão, desencadeando novas estéticas. Hoje, é o tingimento do bazin que move a economia e a moda local. Mesmo feito com produtos químicos e no tecido industrial importado, ele perpetua a renovação de um conhecimento local, como informa o texto de apresentação da exposição.

Em entrevista com Samuel Sidibé, diretor do museu, conversamos sobre o futuro dos fazeres tradicionais, a simbologia dos tecidos, etnologia e moda. Confira:

Quais tecidos foram selecionados pra representar o Mali nessa exposição?
A exposição é resultado de anos de pesquisa. A equipe de pesquisadores do museu viajou pelo país coletando e registrando tecidos, vestimentas e histórias. O objetivo também era aumentar a coleção do museu com uma tradição ainda viva nos dias de hoje. 
Os tecidos presentes são tradicionais e fazem parte da história do Mali, como o índigo dos dogon, o bogolan dos caçadores, os tecidos de tear como os Arkilla Kerka dos fula, alguns fragmentos de tecidos encontrados nas grutas dos Tellem, e o bazin, que apesar de industrial e produzido pela Alemanha, ganha novo significado com os tingimentos dos malineses.

Qual espaço a arte têxtil ocupa hoje na vida econômica, social e artística?
Os tecidos dos tecelões fula, por exemplo, como o Arkilla Kerka ou pano de casamento, eram produzidos principalmente pra compor o enxoval da noiva. É comum que peças sejam produzidas pra serem um presente pra família do noivo, ou pra serem usadas no casamento – e principalmente são um objeto de valor pra ser guardado. Ele é usado como moeda de troca em tempos difíceis, caso necessário. Outro fator que impulsionava a produção de tecidos tradicionais era o turismo. Essa tradição está morrendo. Ainda resiste nas cidades graças aos poucos turistas que continuam vindo, mas nas aldeias não há mercado, é um produto caro. 
O ciclo da tecelagem incluía mulheres mais velhas que filavam o algodão e os tecelões, mas até os utensílios de produção também vão desaparecendo. Hoje os jovens não se vestem com os tecidos de tear a não ser pra atrair turistas. É uma questão de moda, eles querem se parecer com jovens de NY. A globalização uniformiza e as técnicas se perdem. 

Mas onde que as tradições se encontram mais preservadas?
Entre os dogon. Eles ainda usam tecidos de tear estampados com índigo e bordados. Talvez o uso tenha se mantido por mais tempo lá por conta de um forte turismo que movimentou o mercado local por anos. No entanto o índigo usado hoje em dia por eles não é mais natural.

E por que o bazin faz parte da exposição?
É por conta do bazin que a tradição de tingimento de reserva se mantém, ele é um novo suporte com tintura química onde usam-se técnicas antigas de estamparia. O bazin se apresenta com um bom potencial econômico e de criação, exportado pro Senegal e Congo, entre outros. É um tecido caro, que começou a ter visibilidade entre os anos 70 e 80. A população gosta do seu aspecto brilhante.

E o bogolan? Ainda tem seu espaço?
O bogolan é uma técnica rural, usada por ferreiros e caçadores, que se torna um fenômeno urbano quando Chris Sedou, estilista malinês instalado em Paris, adapta o tecido tradicional às exigências da alta-costura ocidental e cria artigos de moda ocidentais com o bogolan, como minissaias e jaquetas. Antes ninguém se vestia com esse tecido a não ser nas zonas rurais. Afinal, a estamparia é feita a base de argila, plantas e raízes encontradas nessas regiões. O grupo de artistas Kassobane contribui igualmente pra sua popularidade; formados no Instituto Nacional de Artes, eles criam quadros contemporâneos com a técnica, substituindo as tintas da academia. Tem ainda o trabalho do figurinista Kandjura, que cria grandes boubous de bogolan pro cinema. Assim o bogolan ganha popularidade e chega até o Japão!

E os fragmentos de tecidos dos Tellem?
Foram encontrados nas grutas junto com ossadas dos Tellem. Exames mostram que não há ligação entre os Tellem e a população atual, os dogon. Porém muitos entre os dogon se dizem descendentes dos Tellem… De fato a identidade é mais importante do que a biologia, é a consciência de identidade que prevalece. A palavra Tellem significa “aqueles que estavam aqui antes de nós”. Mas a verdade é que toda essa classificação étnica é uma invenção colonial do século 19.

Por que nos deparamos com textos afirmando que os tecidos africanos falam sempre que pesquisamos a respeito do assunto?
Isso também faz parte da história dos etnólogos. É preciso ter cuidado pois nem tudo é simbólico, nem todo desenho em um tecido é uma simbolização do mundo. Isso faz parte de um discurso da época colonial, um discurso de evolução que nega o potencial artístico e criativo e busca razões pras criações. Até hoje os dogon reproduzem o discurso de Marcel Griaule [antropólogo francês] – foi ele quem disse, falando sobre os dogon, que o ato de tecer inventa a palavra. Mas a palavra já existia muito antes do tear!

Grande parte do material sobre história das culturas do continente africano foi escrita por europeus e norte-americanos. Até que ponto esse material é confiável?
Justamente, muitas vezes a população local cria um discurso pra satisfazer a vontade ocidental de compreender o universo local. Na minha opinião, se você quer saber algo sobre nossa cultura, não diga que você é etnólogo!

Mas as vestimentas dos caçadores contêm escritas e significados, certo?
Sim, são roupas usadas em situação de conflito e de caça, muitas trazem escrituras e versos corânicos de proteção, além dos inúmeros amuletos bordados. No entanto ainda não conseguimos decifrar as escritas sobre as vestimentas de caçadores expostas no museu, ainda estamos à procura de alguém que possa traduzir os versos.

Ligia Meneghel Chagas, da Okan, infohunter do Site Lilian Pacce direto de Mali

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